Comportamento alimentar
alimentação e performance
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Alimentação e performance: será que estamos tentando transformar cada refeição em produtividade?

Quando falamos em alimentação e performance, geralmente pensamos em atletas. Afinal, no esporte de alto rendimento, o desempenho é parte central da rotina. Treinos, descanso, saúde mental e alimentação caminham juntos na busca por melhores resultados.

Nesse contexto, a nutrição pode ter um papel importante. Uma terapia nutricional individualizada, com orientações adequadas para treinos e competições, ajuda atletas a alcançarem seus objetivos. E, para isso, contar com profissionais especializados faz toda a diferença.

Mas a ideia de alimentação e performance saiu das quadras, pistas e academias de alto rendimento. Hoje, cada vez mais pessoas, mesmo sem serem atletas, sentem que precisam “comer para produzir mais”, “ter mais energia”, “render melhor” ou “otimizar” o próprio corpo.

A comida deixou de ser apenas prazer, cultura e cuidado. Em muitos momentos, ela passou a ser vista como uma ferramenta de produtividade.

O problema é que, quando toda escolha alimentar precisa ter uma função produtiva, podemos perder algo essencial: uma boa relação com a comida.

Vem comigo refletir mais sobre esse assunto!

A sociedade performática e o corpo produtivo

Antes de falarmos especificamente sobre  alimentação e performance, é importante entendermos que vivemos em uma sociedade que valoriza desempenho o tempo todo. Produzir mais, render mais, acordar mais cedo, treinar mais forte, envelhecer mais devagar, ser mais eficiente. A lógica da performance ultrapassou o trabalho e passou a ocupar praticamente todos os espaços da vida, inclusive a forma como nos alimentamos.

A chamada sociedade da performance, ou sociedade do desempenho (termo cunhado pelo filósofo Byung-Chul Han), descreve justamente esse cenário em que o valor de uma pessoa parece estar diretamente ligado à sua produtividade, otimização e capacidade de alcançar resultados. 

Desse modo, hoje vivemos uma cultura em que nós mesmos nos cobramos constantemente para melhorar, evoluir e performar mais. Nós internalizamos essa cobrança e, muitas vezes, acreditamos que nunca estamos fazendo o suficiente.

Essa pressão aparece de várias formas no cotidiano. Precisamos ser produtivos no trabalho, eficientes nos estudos, ativos nas redes sociais, disciplinados nos exercícios físicos e, agora, também “perfeitos” na alimentação. Nesse contexto, a ideia de alimentação e performance ganha força, muitas vezes associando o ato de comer à produtividade, ao controle e à otimização constante do corpo, na lógica do “foco, força e fé”. 

Alimentação e performance: o equilíbrio é possível?

Em uma sociedade orientada pela performance, a comida pode deixar de ser vista como fonte de prazer, cultura e cuidado para ser avaliada pelo quanto contribui para o desempenho: energia, foco, rendimento e disposição. Nesse contexto, a relação entre alimentação e performance ganha cada vez mais espaço no cotidiano. Comer vira quase um projeto de otimização pessoal. 

Não por acaso, cresce o interesse por estratégias alimentares divulgadas como formas de aumentar produtividade, melhorar concentração, reduzir cansaço ou transformar o corpo em uma “máquina” mais eficiente. Nesse contexto, até o descanso parece precisar ser produtivo.

Um bom exemplo de quando a sociedade da performance atingiu a alimentação é o “bulletproof coffee” ou “café à prova de bala”. Trata-se de café, manteiga sem sal (opcional) e uma colher de óleo de coco. Os supostos benefícios dessa fórmula seriam o emagrecimento, mas também a capacidade de “turbinar” o cérebro, aumentando a concentração e desempenho durante as tarefas diárias ou atividade física. 

Mas veja só, nada disso tem comprovação científica. Esse modismo alimentar surgiu nos Estados Unidos, tendo sido popularizado por um empreendedor do Vale do Silício, fundador de uma empresa que vende óleo de coco, e a moda pegou entre celebridades e se espalhou por todo o mundo.

Essa lógica da performance também se estende às redes sociais, onde a pressão estética e a busca por resultados rápidos acabam sendo potencializadas. Corpos, rotinas e hábitos alimentares passam a ser exibidos como símbolos de disciplina, sucesso e autocontrole. Assim, a ideia de alimentação e performance passa a ser associada à produtividade e ao valor social do corpo. 

Nesse cenário, vemos crescer o uso de estratégias para emagrecimento, incluindo medicamentos como Mounjaro e Ozempic, por pessoas que não possuem indicação clínica para seu uso. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes e, posteriormente, também utilizados no tratamento da obesidade em casos específicos, esses medicamentos ganharam enorme popularidade devido ao seu efeito na perda de peso. 

O problema é que, junto dessa popularização, cristaliza-se a ideia de que emagrecer sempre um pouco mais seria desejável. Os medicamentos passaram a ser vistos como ferramentas de otimização estética e de performance corporal, enquanto se perde de vista que seu uso também envolve riscos e efeitos colaterais. 

O problema de transformar saúde em desempenho

Não vejo problema em querer melhorar aspectos da vida, incluindo a alimentação, pelo contrário. Buscar uma relação mais consciente com a comida pode ser muito positivo. Como gosto de dizer: “comer melhor e não menos”.

A questão começa quando essa busca se torna exagerada, rígida ou baseada em promessas de performance a qualquer custo e, desse modo, passamos a restringir alimentos, sentir culpa ao comer ou consumir determinados produtos apenas porque alguém disse que são “bons”.

É preciso lembrar que o corpo humano não funciona como uma máquina programável. Somos atravessados por emoções, relações sociais, cultura, prazer e limites. Quando toda experiência alimentar precisa ter uma função de desempenho, corremos o risco de perder a espontaneidade e a conexão com nossas próprias necessidades, além de acabar deixando a saúde de lado em prol dessa performance. 

Nesse cenário, a ideia de alimentação e performance deixa de estar associada ao cuidado e passa a ser guiada por cobrança, controle e produtividade constante. 

Por isso, minha dica final é: procure se alimentar melhor, consumindo mais comida fresca e caseira; dormir bem; aprender a lidar com o estresse; e praticar atividade física regular e prazerosa. Mas faça tudo isso pensando na sua saúde, considerando sua realidade, buscando o progresso e não a perfeição. 

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Bon appétit!

Referências

BECK, Kathryn L. et al. Role of nutrition in performance enhancement and postexercise recovery. Open Access J Sports Med, p. 259-267, 2015. 

DERAM, Sophie. Pare de engolir mitos. 1. ed. Rio de Janeiro : Sextante, 2024.

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  1. Como criar o hábito de tomar café da manhã?
  2. Precisando descobrir como ganhar motivação para emagrecer? Que tal viver um dia por vez?
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