Sabe aquela pessoa que recusa experimentar novos alimentos? Pode ser neofobia alimentar.
A neofobia alimentar em crianças é mais comum que em adultos. Ela acontece especialmente durante a primeira infância, mas pode afetar as pessoas em qualquer idade, interferindo na qualidade da alimentação e no prazer de comer.
Neste texto, vamos explorar melhor o que é a neofobia alimentar, por que ela acontece, como ela se manifesta em diferentes fases da vida e o que pode ser feito para lidar com essa dificuldade de forma acolhedora e eficaz.
Se você ou alguém próximo evita certos alimentos ou tem resistência a experimentar novos sabores, este conteúdo é para você.
Vem comigo entender mais sobre esse assunto!
O que é neofobia alimentar?
A neofobia alimentar é a tendência a relutar ou ter medo de experimentar alimentos novos e desconhecidos.
Embora possa parecer apenas um comportamento negativo, esse mecanismo tem raízes evolutivas importantes. Ao longo da história da humanidade, desconfiar de um alimento desconhecido foi uma estratégia de sobrevivência. Essa cautela ajudou a evitar o consumo de itens potencialmente perigosos, como plantas tóxicas ou alimentos estragados.
Nas primeiras fases da vida, esse instinto de proteção é ainda mais evidente. É por isso que os pequenos tendem a rejeitar alimentos com sabor amargo, geralmente associado à toxicidade. Assim, a neofobia alimentar em crianças é especialmente comum, pois na infância o organismo ainda está aprendendo a reconhecer o que é seguro para consumo.
Com o tempo e a exposição gradual a diferentes alimentos, é esperado que essa resistência diminua. No entanto, em algumas pessoas a neofobia alimentar persiste até a vida adulta, o que pode limitar a variedade alimentar, levar ao baixo consumo de legumes, frutas e verduras e comprometer a qualidade da alimentação como um todo.
A longo prazo, esse padrão também pode contribuir para o risco aumentado de desenvolver doenças crônicas, como hipertensão e diabetes tipo 2.
É importante destacar que a neofobia alimentar pode ser influenciada por uma combinação de fatores genéticos, biológicos, psicológicos, emocionais e culturais.
Por exemplo, é comum sentir resistência a alimentos que não fazem parte de seu repertório cultural. Já pessoas com doença celíaca tendem a evitar novos alimentos por receio de que possam conter glúten e desencadear reações adversas. Além disso, experiências negativas ou emoções desagradáveis associadas a determinados alimentos também podem gerar aversão e rejeição alimentar.
Também é comum confundir neofobia alimentar com seletividade alimentar. No entanto, esta última não se refere ao medo de experimentar alimentos novos, mas sim a uma baixa aceitação alimentar, caracterizada por fortes preferências por determinados sabores, texturas e cores, podendo haver rejeição tanto de alimentos familiares quanto desconhecidos.
Neofobia alimentar em crianças: como lidar
A neofobia alimentar em crianças pode aparecer no primeiro ano de vida, mas geralmente esse comportamento se intensifica de 1 ano e meio a 2 anos de idade, quando a criança também experimenta um aumento de mobilidade. É aquele momento que pode ser traduzido por uma frase muito comum entre os pais: “meu filho não quer comer”.
É comum que essa fase se dissipe espontaneamente. Os alimentos vão sendo continuamente expostos, tornam-se familiares e fica mais fácil aceitá-los.
Algumas estratégias podem ajudar a criança a superar essa fase de forma respeitosa:
- Apresentar novos alimentos de maneira criativa e atrativa no prato;
- Evitar pressões, chantagens ou punições relacionadas à alimentação;
- Oferecer o alimento várias vezes, sem obrigar o consumo;
- Comer junto com a criança e dar o exemplo, mostrando que o alimento é seguro.
Outro fator importante é a relação dos pais com a comida: restrições rígidas quanto ao tipo de alimento permitido ou aos horários em que podem ser consumidos estão associadas a um aumento da neofobia alimentar infantil. É importante oferecer comida fresca e caseira e ter horários regulares para a alimentação, mas sem rigidez excessiva.
Isso porque tais atitudes podem gerar ansiedade, culpa ou confusão em torno da alimentação, tornando a experiência menos acolhedora e mais conflituosa.
Quando a neofobia alimentar persiste
Na maioria dos casos, a neofobia alimentar tende a desaparecer conforme a criança cresce. No entanto, se a recusa alimentar persistir e interferir na nutrição, crescimento ou convívio social, pode ser um sinal de algo mais sério, como um transtorno alimentar.
Embora seja mais comum que os transtornos alimentares se manifestem na adolescência — como é o caso da anorexia, bulimia e compulsão alimentar —, crianças também podem ser afetadas. O transtorno mais frequente nessa faixa etária é o TARE (Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo), e a neofobia alimentar pode ser um dos seus primeiros sinais.
O TARE é caracterizado por uma alimentação extremamente seletiva ou pela evitação persistente de certos alimentos, sem que isso esteja relacionado à preocupação com o peso ou com a imagem corporal, como acontece em outros transtornos alimentares.
Essa recusa pode ter diferentes origens, como:
- Hipersenibilidade sensorial, envolvendo cor, cheiro, textura ou sabor dos alimentos;
- Medo de engasgar, vomitar ou ter reações adversas (como alergias);
- Falta de apetite ou pouco interesse em se alimentar.
Apesar de frequentemente surgir na infância, o TARE pode se prolongar até a adolescência e idade adulta. E, quando não tratado, pode comprometer o estado nutricional, o crescimento, a qualidade de vida e a saúde mental da pessoa.
Assim como os demais transtornos alimentares, o TARE é uma condição complexa, de base neurobiológica, influenciada por fatores genéticos, psicológicos e sociais. Isso significa que ele não é resultado de “birra” ou “falta de educação”, como infelizmente ainda se ouve.
Cada pessoa afetada pelo transtorno pode apresentar desafios diferentes, dependendo da idade, da intensidade dos sintomas e do ambiente em que vive.
O tratamento do TARE deve ser multidisciplinar e adaptado às necessidades de cada paciente. Geralmente envolve os seguintes profissionais:
- Psiquiatra: para realizar o diagnóstico, avaliar comorbidades (como desnutrição, ansiedade, Transtorno do Espectro Autista ou Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e acompanhar o uso de medicações, quando necessário;
- Nutricionista: para garantir um estado nutricional adequado, identificar e corrigir deficiências nutricionais e orientar a introdução gradual de novos alimentos, sempre respeitando os limites e sensibilidades do paciente;
- Psicólogo: com foco em trabalhar as crenças negativas em torno da alimentação, os medos associados ao comer e os comportamentos de evitação;
- Fonoaudiólogo: quando há suspeita de dificuldades motoras orais, como problemas de mastigação, deglutição ou questões sensoriais mais amplas.
O apoio da família é fundamental em todo o processo. É essencial que pais e responsáveis acolham a criança com empatia, evitando pressões, ameaças ou punições relacionadas à comida.
Tratar o TARE (ou mesmo a neofobia alimentar que se manifesta de forma pontual) com imposições ou cobranças costuma agravar o quadro. O progresso acontece com paciência, escuta ativa e pequenas conquistas ao longo do tempo.
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Referências
BIAŁEK-DRATWA, Agnieszka et al. Food Neophobia and Avoidant/Restrictive Food Intake among Adults and Related Factors. Nutrients, v. 16, n. 17, p. 2952-2968, 2024.
ALVARENGA, Marle et al. Nutrição Comportamental. 2.ed. Barueri – SP: Manole, 2019.
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