Recentemente, parece que estamos ficando com medo de nossas fomes.


Por exemplo, foi lançado um produto alimentício com a propriedade de “matar a fome”, e fiquei muito surpreendida em receber o convite do lançamento, no qual estava escrito que “nutricionistas também têm fome”… Como assim? Que novo mito é esse que nutricionistas vivem sem fome? Antes, diziam que nutricionistas comiam perfeitamente e controlavam tudo, mas agora nós, nutricionistas, não temos fome?

Quero dizer em alto e bom som que não como perfeitamente, não faço dieta e não controlo tudo o que como. Eu tenho fome e gosto disso!

A fome não é um vilão e não é uma sensação que você precisa matar ou temer. Ela é fisiológica, natural, normal e é necessária porque te indica que o seu corpo precisa de nutrientes. Tem que respeitá-la e saber senti-la antes que esteja tão forte que possa dar uma sensação de perda de controle. A sensação de fome é a que faz o bebê chorar para mamar, faz a criança pequena ficar irritável e sem paciência por sentir dores no estômago, e esta, com certeza, é uma sensação muito desagradável. Mas ela é natural, pois sentir fome é o que fará você procurar alimentos para recarregar suas baterias. É por isso que uma rotina importante na vida de crianças pequenas é a de oferecer uma refeição quando a fome ainda não atingiu sua força máxima.

É importante que a criança sinta um pouco de fome e saiba dizer: “mãe, estou com fome!”. Quando os meus filhos eram pequenos e falavam isso, eu sempre respondia: “que bom que está com fome, isso que é saúde!”. É muito saudável sentir fome! Em meu consultório, trabalho com pacientes para que retomem suas sensações de fome e, consequentemente, de saciedade, para que não tenham mais medo dela e saibam ouvir melhor seus corpos. Dá para recuperar essas sensações, caso tenham sido perdidas! Devemos nos perguntar: por que as pessoas perdem a sensação natural de fome com a qual nasceram?

Na maioria das vezes, isso acontece por causa de dietas. Quando você está seguindo uma dieta, você controla o que come sem escutar seu corpo. Com isso, você se desliga dele e o obriga a seguir uma dieta rígida e restritiva que, além de desrespeitar sua fome, reduz calorias ou, pior, exclui grupos alimentares, assim estressando ainda mais o corpo. Você, então, para de escutar seus sinais naturais e fica recusando essas sensações de fome e saciedade. O cérebro, que é o controlador da sua fome, mas também do seu peso (sabia dessa?), vai acabar mandando sinais mais fortes de fome porque você não está escutando suas mensagens. Isso levará a um risco maior de comer demais ou de ter compulsões com perda de controle. Aí sim, a fome dá medo.

Costumo dizer às crianças: “Quando você sente fome, é como se o seu corpo estivesse dando um telefonema para o seu cérebro para dizer que está com fome. Aí, o seu cérebro vai ligar para você para que você coma. Se você não responde, o coitado do cérebro vai ter que fazer dezenas de telefonemas e usar várias linhas de telefone diferentes até que você atenda! Nessa hora, você poderá exagerar ou comer demais!”.

Acredite ou não, as crianças entendem muito bem! Elas ainda estão muito ligadas a seus corpos! Pais e mães, por favor, respeitem a fome dos seus filhos! Eduquem-nos a escutarem e respeitarem seus corpos e a gostarem de comer bem e sem culpa. Se o seu filho está com sobrepeso, você não deveria fazer restrições ou dietas para ajudá-lo, pois fazer isto com certeza irá comprometer seu controle de fome e saciedade e encaminhá-lo ao risco de ter uma vida de sofrimento com a comida, excesso de peso ou transtorno alimentar. É melhor ensiná-lo a respeitar sua fome, e seu papel de pai e mãe é o de melhorar a qualidade alimentar à qual ele tem acesso!

Como disse em meu artigo anterior: a questão não é “por que estou engordando?”, mas sim “por que não paro de comer?”.

Se você está com medo de ter fome, vale a pena procurar ajuda para trabalhar o comer consciente (mindful eating). Esta é a melhor forma de perder peso e atingir o máximo de sua saúde e bem-estar! Não fique com medo da fome! Aprenda a ser sua aliada no comer adequado e, assim, atingir o seu maior potencial de saúde. Bon appétit!

Publicado no blog do GENTA em 3 de outubro 2013.

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