Você já ouviu falar que mais exercício é melhor para obesidade? Ou que, para emagrecer, é preciso treinar até a exaustão, suar muito ou fazer exercícios em jejum?
Quando falamos sobre exercício físico e obesidade, ainda existem muitas crenças que parecem lógicas à primeira vista, mas que nem sempre encontram respaldo na ciência.
O problema é que essas ideias podem gerar culpa, frustração e até afastar as pessoas da prática de atividade física.
Por isso, separei 6 mitos sobre exercício físico e obesidade que valem a pena serem discutidos para entender o que realmente sabemos até o momento sobre o tema.
Vamos lá?
1- Quanto mais exercício, melhor
Esse é provavelmente um dos mitos mais comuns quando falamos sobre exercício físico e obesidade.
De forma geral, o exercício segue uma relação conhecida como dose-resposta. Isso significa que, quando aumentamos a quantidade ou intensidade do treinamento, tendemos a observar adaptações positivas, como aumento de força, melhora do condicionamento físico e ganho de massa muscular.
Mas essa relação não é infinita. Existe um ponto em que os ganhos passam a ser menores, mesmo com aumentos importantes na carga de treinamento. E há também situações em que o excesso de exercício pode produzir respostas negativas, comprometendo a recuperação, aumentando o risco de lesões e prejudicando o bem-estar.
A questão é que não existe uma fórmula capaz de determinar exatamente qual é a quantidade ideal de exercício para cada pessoa.
Cada um de nós possui características, objetivos, limitações e respostas fisiológicas próprias. Por isso, embora profissionais de saúde possam incentivar um estilo de vida ativo, a prescrição do exercício deve ser realizada por profissionais de Educação Física, que possuem formação específica para orientar modalidade, intensidade, frequência e volume de treinamento.
2- Exercício serve apenas para perder peso
Muitas pessoas associam exercício físico exclusivamente à perda de peso, mas esse raciocínio pode gerar expectativas irreais.
Os estudos mostram que, em média, o exercício isoladamente costuma promover perdas de peso relativamente modestas. Dependendo do contexto, essa redução pode ficar em torno de 2 a 3 quilos.
Isso significa que o exercício não funciona? Muito pelo contrário.
O exercício físico pode melhorar a capacidade cardiorrespiratória, aumentar a força muscular, ajudar na manutenção da massa magra, favorecer a mobilidade, melhorar a qualidade do sono, reduzir sintomas de ansiedade e depressão e contribuir para a saúde de diversas formas.
Ou seja, o principal benefício do exercício físico e obesidade não deveria ser medido apenas pela balança.
3- Obesidade acontece apenas porque a pessoa consome mais calorias do que gasta
É verdade que o ganho de peso está relacionado ao balanço energético. Mas essa explicação, isoladamente, é simplista.
Diversos fatores biológicos, ambientais, psicológicos, sociais e econômicos influenciam esse processo e o corpo possui diversos mecanismos compensatórios.
Uma pessoa pode gastar energia durante o exercício e sentir mais fome depois. Outra pode ficar tão cansada após o treino que reduz espontaneamente sua movimentação ao longo do restante do dia.
Além disso, fazer muita atividade física e dieta restritivas, por exemplo, pode acabar colocando o corpo em um estado de alerta, levando à redução do metabolismo.
Por isso, pensar apenas em “calorias que entram” e “calorias que saem” não é suficiente para compreender a obesidade.
4- Pessoas com obesidade são sedentárias
Esse é um mito que envolve exercício físico e obesidade, além de revelar um grande preconceito.
Existem muitas pessoas sem obesidade que não praticam atividade física regularmente. Enquanto que alguém com obesidade pode ser fisicamente ativo.
Além disso, algumas pessoas com obesidade podem apresentar boa saúde metabólica, enquanto indivíduos com peso considerado normal podem apresentar alterações metabólicas importantes.
Generalizações desse tipo reforçam estigmas que dificultam o cuidado em saúde.
5- Exercício físico em jejum ajuda a emagrecer mais
A lógica para essa crença costuma ser a seguinte: se a pessoa está em jejum, terá menos glicogênio (reserva de energia formada a partir de glicose, armazenada nos músculos e no fígado) disponível e utilizará mais gordura durante o exercício.
Embora algumas alterações metabólicas realmente ocorram, isso não significa que haverá maior perda de gordura corporal no longo prazo.
O organismo é muito mais complexo do que uma única via bioquímica observada durante o treino.
Quando analisamos desfechos clinicamente relevantes, como composição corporal e emagrecimento, não existem evidências consistentes de que treinar em jejum seja superior para pessoas com obesidade. O mais importante continua sendo a adesão ao exercício e sua prática regular.
6- Só exercício aeróbico funciona para quem tem obesidade
Outro mito comum é que apenas caminhadas, corridas ou exercícios aeróbicos seriam úteis para o emagrecimento.
Na realidade, diferentes modalidades podem trazer benefícios. O treinamento de força contribui para a manutenção e o ganho de massa muscular, melhora a funcionalidade e favorece a saúde metabólica. Exercícios aeróbicos também oferecem benefícios importantes para a saúde cardiovascular.
Não existe uma modalidade universalmente superior. A melhor escolha depende das necessidades, condições e preferências de cada pessoa.
Exercício físico e obesidade: a melhor escolha é aquela que cabe na vida real
Quando falamos sobre exercício físico e obesidade, um dos maiores desafios é abandonar a ideia de que existe uma estratégia perfeita.
Algumas pessoas adoram academia. Outras não se sentem confortáveis nesses ambientes, especialmente quando existem experiências prévias de estigma de peso ou sensação de julgamento.
Nesses casos, caminhar, pedalar, dançar, praticar esportes recreativos ou simplesmente encontrar formas prazerosas de se movimentar pode ser mais interessante.
E existe outro detalhe importante: atividades realizadas por prazer e escolha pessoal tendem a apresentar maior adesão e podem produzir benefícios mais duradouros do que atividades encaradas apenas como obrigação.
Por isso, antes de perguntar quanto uma pessoa está treinando, os profissionais de saúde deveriam questionar o que está dificultando que ela seja mais ativa.
Afinal, o objetivo não deveria ser encontrar o exercício perfeito para mudar o corpo, mas encontrar formas de movimento que promovam saúde, autonomia, prazer e qualidade de vida.
Para saber mais sobre exercício físico e obesidade, vale a pena acessar a minha comunidade Efeito Sophie e conferir a live que fiz com Guilherme Artioli. Ele é educador físico com mestrado e doutorado em Educação Física pela USP. Também tem pós-doutorado na mesma instituição com estágio pela Nottingham Trent University e é professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
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Referências
CAREAU, Vincent et al. Energy compensation and adiposity in humans. Current Biology, v. 31, n. 20, p. 4659-4666. e2, 2021.
FLACK, Kyle D. et al. Energy compensation in response to aerobic exercise training in overweight adults. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol., v. 315, n. 4, p. R619-R626, 2018.
OPPERT, Jean-Michel; CIANGURA, Cécile; BELLICHA, Alice. Physical activity and exercise for weight loss and maintenance in people living with obesity. Rev Endocr Metab Disord., v. 24, n. 5, p. 937-949, 2023.
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