Sabe que a perda de controle ao comer tem muita relação com a preocupação com a comida?
Uma nutricionista chamada Tamiris Lavorato Gaeta, com aprimoramento em Transtornos Alimentares pelo AMBULIM-IPQ-HC-FMUSP, fez seu mestrado pela Faculdade de Medicina da USP e participou da publicação de um estudo muito interessante sobre isso.
A pesquisa investigou 119 adultos com transtorno da compulsão alimentar periódica antes do início de um tratamento clínico. Os participantes responderam a questionários sobre:
- Comportamentos alimentares e perda de controle ao comer.
- Dificuldades na regulação das emoções.
- Sintomas de depressão, ansiedade e estresse.
- Qualidade de vida relacionada à saúde mental.
As análises mostraram que:
- Comportamentos alimentares relacionados a transtornos alimentares estão diretamente associados a maiores níveis de depressão, ansiedade e estresse;
- Depressão, estresse, dificuldades emocionais e comportamentos alimentares estão ligados a uma pior qualidade de vida mental;
- Comportamentos do transtorno alimentar e estresse também se relacionam diretamente com dificuldades na regulação das emoções.
Vale lembrar que este estudo não indica causalidade. Ou seja, não é possível afirmar se, por exemplo, a depressão leva à perda de controle alimentar ou se a perda de controle contribui para a depressão. Trata-se apenas de uma associação, não de uma relação de causa e efeito
É interessante que os resultados não indiquem nenhuma associação entre o IMC e a frequência ou intensidade da compulsão; ou seja, ter um IMC maior não se relacionou com maior compulsão ou sensação de falta de controle.
O que esteve mais associado à sensação de perda de controle foi a preocupação com a comida. Isso é muito importante de observar, pois é comum notar como as pessoas costumam se preocupar durante as refeições: sentam-se para comer e ficam se perguntando se a quantidade é pouca ou muita, se contém açúcar, lactose ou glúten.
Essa preocupação aparece até mesmo em pessoas que não têm transtorno alimentar, e muitas vezes os próprios profissionais de saúde, incluídos os nutricionistas, podem estar contribuindo com essa preocupação, mesmo que de forma não intencional. Por isso gostaria de falar mais sobre isso no tópico seguinte.
Como a preocupação com a comida pode se instalar?
Mensagens alarmistas — como “obesidade mata” ou “não coma isso” — são comuns, e muitos profissionais de saúde acreditam que aumentar a informação ou enfatizar os riscos ajuda o paciente a comer melhor. Na prática, acontece o contrário: o medo gera ansiedade e a necessidade de controle, criando respostas adaptativas que não resolvem o problema.
Quando uma pessoa não tem ferramentas de mudança, a tendência é entrar em negação ou buscar estratégias que parecem proteger, mas não ajudam de fato.
Além disso, o discurso nutricional muitas vezes é moralista: “comida certa ou errada”, “se eu preciso emagrecer, não posso comer chocolate”. Essa dicotomização reforça crenças pré-existentes e cria regras rígidas que geram culpa sempre que são quebradas.
Quanto maior a preocupação com a comida, maior a culpa ao transgredir essas regras e a sensação de perda de controle ao comer, mesmo que a pessoa não tenha realmente consumido algo proibido — a restrição cognitiva sozinha já alimenta a preocupação. Quanto mais se tenta evitar, mais o cérebro insiste no que é “proibido”.
E não podemos esquecer da indústria: a grande publicidade em torno de alimentos diet, light, sem glúten ou sem lactose, vendidos como mais saudáveis, também reforçam a ideia de que certas comidas são perigosas ou proibidas.
Como abordar a perda de controle ao comer e a preocupação com a comida no consultório? 3 dicas
Em resumo: a preocupação excessiva com a comida não melhora os hábitos alimentares, só aumenta culpa, medo e controle. O desafio está em oferecer informações, apoio e estratégias que respeitem a pessoa como um todo, e não apenas a regra da alimentação “perfeita”.
Por isso, tenho 3 dicas para você usar nos seus atendimentos:
1- Deixe de lado a dicotomização dos alimentos
Não existem alimentos “bons” ou “ruins”. Todos podem fazer parte de uma alimentação saudável, dependendo do contexto, da quantidade e da frequência. Por exemplo, alimentos ultraprocessados não são recomendados para consumo cotidiano nem em grandes quantidades, mas o consumo ocasional não é proibido.
O importante é ajudar o paciente a entender o equilíbrio dentro da vida real, sem transformar a alimentação em regra rígida ou moralizante.
2- Desmistifique crenças sobre comida
Comece pelo básico: refeição com cara de refeição, focando em comida, não apenas em nutrientes isolados. Evite terrorismo nutricional; mostrar que o paciente pode comer de tudo não significa ausência de critérios, mas sim uma abordagem flexível e adaptativa. Isso ajuda a reduzir a preocupação e a perda de controle ao comer, quebrando a rigidez mental que muitas vezes acompanha a alimentação.
3- Incentive a autonomia do paciente
O paciente conhece seu corpo e suas vontades melhor do que qualquer profissional. O papel do nutricionista é ajudar o paciente a se reconectar consigo mesmo, escutando, acolhendo e orientando, sem prescrição rígida como comer de 3 em 3 horas ou definir quantidades exatas de cada alimento. Ao respeitar a autonomia do paciente, o profissional evita gerar culpa e controle, enquanto fortalece a confiança do paciente em suas próprias escolhas.
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Após muitos pedidos de profissionais de saúde que entraram em contato comigo, criei a Formação Método Sophie de Terapia Nutricional.
Ao publicar “O Peso das Dietas”, notei uma necessidade de colegas da área de se atualizarem na ciência da Nutrição em relação ao peso, obesidade e transtornos alimentares, além da área comportamental – algo que ainda não é estudado nas faculdades.
O meu objetivo é apresentar uma Nutrição com Ciência e Consciência e fornecer ferramentas para um atendimento mais personalizado e humanizado, com foco na mudança do comportamento e na construção de uma relação mais saudável com a comida.
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Referência
DA LUZ, Felipe Q. et al. An examination of the relationships between eating-disorder symptoms, difficulties with emotion regulation, and mental health in people with binge eating disorder. Behavioral Sciences, v. 13, n. 3, p. 234, 2023.












