Os transtornos alimentares estão cada vez mais presentes na prática clínica, e, ainda assim, continuam sendo um desafio para muitos profissionais de saúde. Isso porque sua origem é complexa, multifatorial e nem sempre evidente.
Durante a formação dos profissionais de saúde, esse tema costuma ser abordado de forma superficial, o que pode dificultar a identificação precoce e adequada dos casos.
Nesse cenário, é mais comum do que parece cometer erros clínicos sem perceber, desde interpretações equivocadas de sinais e sintomas até abordagens que, mesmo bem-intencionadas, podem agravar a relação da pessoa com a comida e com o próprio corpo.
Mas afinal, o que causa transtornos alimentares? E quais são esses erros que precisamos evitar na prática?
Vamos falar sobre isso? Vem comigo!
O que causa transtornos alimentares: fatores biológicos, psicológicos e sociais
Durante muito tempo, os transtornos alimentares foram vistos de forma estereotipada, como um problema restrito a “pessoas ricas” ou explicado, de maneira simplista, por dinâmicas familiares específicas. Hoje, sabemos que essa visão é limitada e não dá conta da complexidade envolvida.
Os transtornos alimentares são transtornos mentais, que envolvem sofrimento físico e psicossocial, e nem sempre esse sofrimento é visível. Muitas vezes, o paciente não expressa claramente o que está vivendo, e, em uma conversa breve ou avaliação superficial, os sinais podem passar despercebidos.
Em termos de frequência, os dados chamam atenção: cerca de 10% da população apresenta comportamentos de risco para transtornos alimentares, enquanto aproximadamente 5% a 6% já têm um transtorno alimentar instalado. Ou seja, estamos falando de algo muito mais comum do que se imaginava.
Mas afinal, o que causa os transtornos alimentares? A resposta não é simples. As causas não estão totalmente esclarecidas, mas já se sabe que esses quadros são multidimensionais. Eles envolvem uma combinação de fatores biológicos (como predisposição genética), psicológicos (como traços de personalidade e experiências de vida) e sociais (como cultura da dieta, estigma de peso e pressões estéticas).
Por isso, o cuidado também precisa acompanhar essa complexidade. O tratamento costuma ser um processo, muitas vezes com avanços e recaídas, e deve ter como foco a pessoa, seu contexto e suas relações, e não apenas o sintoma ou o diagnóstico. É necessário uma equipe multiprofissional, com pelo menos psiquiatra, psicólogo e nutricionista, além do suporte da família, que tem um papel muito importante ao longo do processo.
Transtornos alimentares mais frequentes
Existem diferentes tipos de transtornos alimentares, e conhecer suas características é fundamental para identificar sinais precoces na prática clínica e entender o que causa transtornos alimentares. Os mais comuns são:
- Anorexia nervosa: é marcada por peso corporal significativamente baixo, medo intenso de engordar e uma dificuldade em reconhecer a gravidade da própria condição. Muitas vezes, há uma distorção da imagem corporal, o que mantém o comportamento restritivo.
- Bulimia nervosa: envolve episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios, como vômitos, uso de laxantes ou exercícios em excesso. A pessoa tanto pode ter peso considerado “normal”, quanto sobrepeso ou obesidade, o que pode dificultar o diagnóstico.
- Transtorno da compulsão alimentar: também apresenta episódios de compulsão, mas sem comportamentos compensatórios. Frequentemente está associado a estresse e pode ocorrer em pessoas com sobrepeso ou obesidade, embora não exclusivamente.
- Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE): caracteriza-se por uma recusa ou evitação alimentar, muitas vezes relacionada a medo, sensibilidade sensorial ou experiências negativas com a comida. Pode levar a deficiências nutricionais, perda de peso ou prejuízo no crescimento, especialmente em crianças e adolescentes.
5 erros clínicos que ajudam a entender o que causa transtornos alimentares
Quando falamos sobre o que causa transtornos alimentares, não basta conhecer os diagnósticos, é essencial também olhar para a prática clínica. Isso porque, muitas vezes sem intenção, profissionais de saúde podem adotar condutas que contribuem para o desenvolvimento ou agravamento desses quadros. A seguir, estão cinco erros clínicos mais comuns e que merecem atenção.
- Parabenizar perda de peso ou focar exclusivamente no peso e no IMC
Centralizar o cuidado no número da balança ou no IMC pode ser prejudicial, especialmente quando isso vem acompanhado de elogios à perda de peso. Essa lógica pode reforçar comportamentos de risco e ignorar o sofrimento por trás das mudanças corporais.
É importante lembrar: o paciente pode, sim, desejar perder peso, e isso não deve ser invalidado. Mas o cuidado precisa ir além, explorando o como a relação com a comida acontece, os motivos por trás desse desejo e o que ele representa.
Peso não deve ser tratado como meta, mas como possível consequência. O foco precisa estar no comportamento, nos hábitos e na relação com a alimentação.
- Incentivar dietas restritivas
A restrição alimentar é um dos principais gatilhos para alterações no comportamento alimentar, de modo que é um elemento muito importante ao pensarmos sobre o que causa transtornos alimentares.
Do ponto de vista neurobiológico, o cérebro interpreta a restrição como ameaça, o que pode intensificar pensamentos obsessivos sobre comida, episódios de compulsão e sensação de perda de controle.
Em pessoas com predisposição genética, uma dieta restritiva pode ser o ponto de partida para um transtorno alimentar. Por isso, é fundamental ter cautela, evitar terrorismo nutricional e priorizar estratégias como aconselhamento nutricional, educação alimentar e construção de autonomia.
- Fazer comentários inadequados sobre o corpo, ignorando o sofrimento emocional
Frases como “você emagreceu, está linda” ou “você ganhou peso, o que aconteceu?” podem parecer inofensivas, mas têm impacto direto na relação da pessoa com o corpo. Esses comentários reforçam a insatisfação corporal e podem intensificar sentimentos de inadequação, especialmente em pessoas já vulneráveis.
Além disso, focar apenas na aparência ignora o sofrimento emocional que muitas vezes pode acompanhar essas mudanças.
- Fazer uso de linguagem alarmista
Uma comunicação baseada em culpa, julgamento ou medo — como rotular alimentos como “bons” ou “ruins”, questionar a “disciplina” do paciente ou sugerir que ele está “comendo escondido” — contribui para o estigma e afasta o paciente do cuidado. A alimentação não pode ser reduzida a uma lógica moral.
Esse tipo de abordagem fragiliza o vínculo terapêutico e reforça padrões disfuncionais. O cuidado deve ser acolhedor, livre de julgamentos, sem estigma de peso e baseado em escuta.
- Desconhecimento sobre transtornos alimentares
Por fim, um dos erros mais importantes: não saber identificar sinais de alerta. Práticas como jejuns prolongados, exercício físico excessivo ou regras rígidas com a alimentação podem ser normalizadas, quando, na verdade, merecem investigação. Existe também o chamado “comer transtornado”, quando há sofrimento e rigidez na relação com a comida, mas sem preencher todos os critérios para um transtorno alimentar, o que também merece atenção.
Além disso, uma anamnese baseada apenas em perguntas fechadas pode limitar a compreensão do caso. Perguntas abertas, escuta qualificada e formação contínua são essenciais. Em um cenário onde muitos falam sobre comportamento alimentar sem aprofundamento, torna-se ainda mais importante buscar referências sérias e baseadas em evidências.
Tratar transtornos alimentares é complexo e exige formação específica. Nem todos os profissionais vão atuar diretamente nesses casos, mas é fundamental saber identificar e encaminhar para profissionais especializados, sendo de grande importância reconhecer o que causa transtornos alimentares.
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Referência
BULIK, Cynthia; BLAKE, Lauren; AUSTIN, Jehannine. Genetics of eating disorders: what the clinician needs to know. Psychiatr Clin North Am, v. 42, n. 1, p. 59-73, 2019.












