Transtornos alimentares podem impactar a saúde cardiovascular, aumentando o risco de complicações e mortalidade, é o que mostra estudo realizado por pesquisadores brasileiros.
Será que transtornos alimentares podem impactar diretamente a saúde cardiovascular? Uma revisão sistemática conduzida por uma equipe brasileira mostra que sim, e destaca a importância de ampliar o olhar da população sobre o tema. Não se trata apenas de estar magro ou acima do peso, mas de uma questão relevante de saúde pública.
Quer entender melhor a relação entre transtornos alimentares e saúde cardiovascular? Neste conteúdo, você vai descobrir como esses fatores estão conectados e por que essa discussão é tão importante.
Vem comigo!
Como foi pesquisada a relação entre transtornos alimentares e saúde cardiovascular?
A ciência vem avançando nessa discussão, e os dados mais recentes mostram que os riscos associados aos transtornos alimentares vão muito além da alimentação em si. Eles podem impactar diretamente a saúde cardiovascular, ampliando a importância desse tema no campo da saúde pública.
A nutricionista e pesquisadora Cristiane Buzanello Donin, mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde, integrou uma equipe que realizou uma revisão sistemática sobre a relação entre transtornos alimentares e saúde cardiovascular.
Ao observar a escassez de estudos específicos sobre essa conexão, a pesquisadora decidiu aprofundar a investigação por meio da análise de estudos de coorte — um tipo de estudo observacional e longitudinal que acompanha populações ao longo do tempo para identificar a incidência de doenças e fatores de risco.
Mas o trabalho foi muito além de reunir artigos. O projeto envolveu a construção de uma equipe multidisciplinar composta por três nutricionistas, uma psicóloga, uma fisioterapeuta e um orientador médico cardiologista. Houve planejamento, definição de protocolo e critérios rigorosos para inclusão e exclusão de estudos.
Foram selecionados estudos que apresentavam associação entre transtornos alimentares (anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar) e mortalidade ou desfechos cardiovasculares em pacientes adultos ou adolescentes.
Resultados da pesquisa: o que os dados mostraram sobre transtornos alimentares e saúde cardiovascular
Os resultados ajudam a entender, de forma mais clara, o quanto os transtornos alimentares podem ser sérios para a saúde, indo muito além de um número na balança. A análise reuniu mais de 50 mil pessoas com esses transtornos e mostrou que o risco de morte, por diferentes causas, é maior quando comparado a quem não tem esse tipo de condição.
Na relação entre transtornos alimentares e saúde cardiovascular, a anorexia nervosa aparece como o mais preocupante. Pessoas com anorexia têm um risco de morte cerca de 4 a 5 vezes maior do que aquelas sem transtorno alimentar. Além disso, também apresentam maior chance de morte súbita, o que acende um alerta importante. A bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar também aumentam a mortalidade, mas em menor grau.
O transtorno de compulsão alimentar apresenta uma associação mais consistente com riscos cardiovasculares, o que já era esperado devido à relação conhecida com obesidade e doenças metabólicas.
De toda forma, em alguns estudos, pessoas com bulimia nervosa também tiveram um risco maior de desenvolver doenças cardiovasculares em comparação com pessoas sem transtorno alimentar. Já na anorexia nervosa, o risco foi ainda mais alto.
Esse conjunto de evidências reforça que os transtornos alimentares não devem ser vistos apenas sob a ótica do peso corporal, mas como condições que podem trazer consequências sérias para o coração e para a saúde geral, exigindo atenção, prevenção e cuidado integrado.
Desafios na prática clínica e na pesquisa sobre transtornos alimentares
Apesar dos avanços na pesquisa sobre transtornos alimentares e saúde cardiovascular, ainda existem pontos importantes que merecem reflexão, especialmente quando olhamos para a prática clínica.
Um deles é o fato de que pacientes com peso considerado “normal” muitas vezes não levantam suspeitas durante o atendimento. O foco ainda está muito centrado no peso — principalmente na perda de peso — o que pode fazer com que sinais de transtornos alimentares passem despercebidos. Não se trata de falha individual do profissional, mas de uma lacuna na formação e na capacitação para reconhecer esses quadros.
Outro desafio relevante está na produção científica. Ainda existem poucos estudos de coorte com acompanhamento prolongado, o que pode estar relacionado à própria dificuldade de diagnóstico e acompanhamento dos transtornos alimentares na prática clínica, sendo de grande importância que mais pesquisas sejam realizadas.
Transtornos alimentares e saúde cardiovascular: além do peso, uma questão de saúde pública
Quando a discussão sobre transtornos alimentares e saúde cardiovascular vai além do peso e passa a considerar os impactos funcionais no organismo, especialmente os cardiovasculares, o tema ganha ainda mais relevância. Isso porque fica evidente que se trata de um problema importante de saúde pública.
Além disso, existe uma ideia equivocada de que pessoas magras não apresentam risco cardiovascular. No entanto, a desnutrição, por exemplo, pode levar a alterações como inflamação, pressão baixa e outros processos que afetam diretamente o coração.
Nesse contexto, o nutricionista tem um papel fundamental, já que muitas vezes é o primeiro profissional a ter contato com pacientes que sofrem com transtornos alimentares, podendo identificar sinais precoces e encaminhar para um cuidado adequado.
Também é importante considerar que os transtornos alimentares podem se manifestar de formas variadas, com pacientes transitando entre diferentes quadros ao longo do tempo, o que inclusive dificulta a identificação.
Independentemente do diagnóstico, é essencial um trabalho integrado entre profissionais de saúde, como médicos e nutricionistas, especialmente diante de possíveis complicações como arritmias, hipertensão e aterosclerose.
Como mensagem final, fica o convite: ampliar o olhar para a saúde alimentar, considerando não apenas o peso, mas também o comportamento alimentar, a relação com a comida e os impactos no organismo.
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Referências
BUZANELLO-DONIN, Cristiane et al. Eating disorders and cardiovascular outcomes: A systematic review with meta-analysis. The European Journal of Psychiatry, v. 39, n. 2, p. 100274, 2025.
BUZANELLO-DONIN, Cristiane. Transtornos alimentares e desfechos cardiovasculares: uma revisão sistemática com metanálise. 2024. 124p. Dissertação (Mestrado em Medicina Interna e Ciências da Saúde) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba-PR, 2024.
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