Emagrecer com saúde
Perder massa gorda
Perder massa gorda

Perder massa gorda: até que ponto isso é saudável?

Hoje, falar em reduzir gordura corporal parece quase automático. Em muitos discursos sobre emagrecimento, desempenho e bem-estar, a gordura aparece como algo que deve ser combatido a qualquer custo.

Mas será que perder massa gorda sempre significa mais saúde?

A ideia de que quanto menos gordura corporal, melhor, acabou se tornando quase uma verdade absoluta. Mas o nosso corpo não funciona nessa lógica. A gordura corporal não é apenas algo que “sobra” ou que precisa ser eliminado. Ela faz parte do funcionamento normal do organismo e está envolvida em processos importantes para a saúde.

Por isso, antes de entrar em uma corrida para perder massa gorda, vale entender melhor qual é o papel da gordura no corpo e até que ponto reduzir o percentual de gordura corporal realmente faz sentido.

Vem entender melhor!

Para entender melhor sobre perder massa gorda,  conheça as funções do tecido adiposo

No século XX, com os avanços da fisiologia nutricional e a descoberta das vitaminas, houve um grande interesse científico em compreender o funcionamento do organismo.

Porém, durante muito tempo, o tecido adiposo foi pouco estudado. Em vez de ser reconhecido como parte ativa do metabolismo, passou a ser tratado como um tecido quase inútil, sem função biológica relevante.

A partir daí, a gordura passou a ocupar um lugar simbólico importante, como algo moralmente indesejável. Parte desse pensamento ainda está muito presente hoje, quando a conversa sobre saúde é reduzida à ideia de perder massa gorda a qualquer custo.

Hoje sabemos que essa visão é simplista. A gordura corporal não é um erro do organismo. O tecido adiposo participa de várias funções essenciais para a saúde. Entre elas:

  • Reserva de energia: armazena energia para momentos em que o corpo precisa de combustível entre refeições ou em períodos de maior demanda.
  • Produção e regulação hormonal: participa do equilíbrio de hormônios ligados ao metabolismo, à fome, à saciedade e à função reprodutiva.
  • Proteção dos órgãos:  ajuda a amortecer impactos e proteger estruturas como rins, fígado e outros órgãos internos.
  • Isolamento térmico: contribui para a manutenção da temperatura corporal.
  • Absorção de vitaminas: vitaminas lipossolúveis como Vitamina A, Vitamina D, Vitamina E e Vitamina K dependem da gordura para serem adequadamente absorvidas.
  • Regulação do apetite e do comportamento alimentar: o tecido adiposo também envia sinais ao cérebro sobre disponibilidade energética, influenciando fome e apetite.

Ou seja: gordura corporal não é algo que o corpo “esqueceu de eliminar”. Ela faz parte do funcionamento normal do organismo!

Qual é o percentual de gordura corporal ideal?

De acordo com o American Council on Exercise (ACE), um percentual de gordura corporal entre 25% e 31% em mulheres e entre 18% e 24% em homens é considerado típico para pessoas adultas não atletas. Já percentuais abaixo de 14% em mulheres e abaixo de 6% em homens podem ser considerados excessivamente baixos e estar associados a riscos para a saúde. 

Isso já mostra algo importante: saúde não significa ausência de gordura, nem que é preciso perder massa gorda indefinidamente. 

Ter gordura corporal é esperado, fisiológico e necessário. O problema é que, muitas vezes, a mensagem que circula é outra, como se qualquer quantidade de gordura fosse indesejável. E não é assim que o corpo funciona.

Observa-se que as mulheres naturalmente têm uma porcentagem maior de massa gorda. Isso acontece por fatores hormonais, reprodutivos e metabólicos. Do ponto de vista biológico, a gordura corporal feminina funciona como uma importante reserva de energia, relacionada à fertilidade e a diferentes processos de regulação do organismo. 

Outra questão importante é que a composição corporal muda ao longo da vida. Com o envelhecimento, é esperado que a proporção de gordura corporal aumente um pouco e isso não significa automaticamente piora de saúde.

Alguns fatores ajudam a explicar isso, como a perda natural de massa muscular e as mudanças hormonais. Além disso, uma quantidade moderada de gordura corporal pode funcionar como reserva energética e também oferecer proteção em períodos de doença, recuperação ou maior fragilidade.

Vale a pena perder massa gorda a qualquer custo?

Não. Se o percentual de gordura está muito elevado e isso faz sentido dentro da sua realidade, pode ser interessante pensar em mudanças, mas isso é diferente de entrar em uma corrida para perder toda a massa gorda.

Na prática, saúde vai muito além de números.

O percentual de gordura pode até servir como um guia, entre muitos outros critérios usados para avaliar a saúde de uma pessoa, mas não deveria virar obsessão.

Quando esse número passa a ocupar o centro de tudo, fica fácil perder de vista aspectos igualmente importantes, como qualidade do sono, disposição, exames laboratoriais, relação com a comida, nível de estresse e prática regular e prazerosa de atividade física. 

A saúde não se resume a um percentual isolado. Olhar para o corpo de forma mais ampla costuma ser um caminho mais coerente e sustentável do que perseguir um número ideal a qualquer custo. 

O mais importante é que qualquer mudança respeite seu corpo, sua rotina e sua vida real. Perder massa gorda pode ser um objetivo legítimo. Mas isso não significa declarar guerra à gordura corporal, pois seu corpo precisa de gordura para funcionar.

Mais importante do que uma busca incessante por baixar o percentual de gordura corporal, é se perguntar de que forma é possível cuidar da saúde (física e mental) sem agredir seu corpo.

Adotar um estilo de vida mais saudável costuma ter mais impacto na saúde do que perseguir um número ideal.

No fim das contas, a saúde raramente está em extremos. Ela costuma aparecer com mais consistência quando existe equilíbrio e flexibilidade.

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Referências

DERAM, Sophie. O peso das dietas: emagreça de forma sustentável dizendo não às dietas. 2.ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.

DERAM, Sophie. Pare de engolir mitos. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2024.

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