Durante o ciclo menstrual os níveis hormonais variam naturalmente, preparando o organismo para diferentes funções. Além disso, ao longo da vida, o corpo da mulher passa por outras transições hormonais importantes, como a puberdade, a gravidez, a lactação, a perimenopausa, a menopausa e a pós-menopausa.
Essas mudanças hormonais não afetam apenas o sistema reprodutivo. Elas também podem influenciar o funcionamento do cérebro, o humor, as emoções, o apetite e o comportamento alimentar. Mas até que ponto isso acontece?
Neste texto, você vai saber mais sobre saúde mental no ciclo menstrual, entender como as diferentes fases do ciclo podem influenciar o comportamento alimentar e descobrir o que a ciência sabe sobre essas mudanças.
Como ciclo menstrual e saúde mental se relacionam?
É importante entender que o corpo da mulher não é estático: ele é cíclico. Ao longo do ciclo menstrual e das diferentes fases da vida, ocorrem mudanças hormonais que podem influenciar o metabolismo, o humor, o apetite e o comportamento alimentar. Por isso, compreender a saúde mental no ciclo menstrual também significa reconhecer como essas oscilações hormonais podem afetar o bem-estar emocional e a relação com a comida.
Essas alterações são reguladas por uma comunicação complexa entre o cérebro e os ovários, conhecida como eixo hipotálamo-hipófise-ovário. Nesse processo, participam os hormônios hipofisários — produzidos pela hipófise, uma glândula localizada na base do cérebro —, como o FSH (hormônio folículo-estimulante) e o LH (hormônio luteinizante), que controlam o funcionamento dos ovários.
Os ovários, por sua vez, produzem diversos hormônios, sendo os principais o estrógeno e a progesterona, sobre os quais vamos falar a seguir.
Após a menstruação, os níveis de estrógeno aumentam gradualmente e atingem um pico pouco antes da ovulação. Em seguida, ocorre uma queda, enquanto a progesterona passa a predominar durante a fase lútea. Se não houver gravidez, tanto a progesterona quanto o estrógeno diminuem no final do ciclo, desencadeando uma nova menstruação.
A fase lútea e as mudanças no humor e no comportamento alimentar
Essas oscilações hormonais também repercutem no comportamento alimentar e ajudam a explicar por que a saúde mental no ciclo menstrual pode variar ao longo das diferentes fases.
É na fase lútea que muitas mulheres percebem mudanças mais intensas no corpo e nas emoções. É também nesse período que podem surgir os sintomas da TPM. Embora eles costumem aparecer nos dias que antecedem a menstruação, em algumas mulheres podem persistir por até duas semanas.
Nessa fase, é comum haver aumento do apetite, maior indisposição, retenção de líquidos, alterações de humor e mais desejo por alimentos doces ou hiperpalatáveis. Algumas mulheres também percebem um aumento do comer emocional. Se essa relação com a comida já existe, ela pode se intensificar durante esse período.
Em uma parcela menor das mulheres, os sintomas emocionais são muito mais intensos e podem indicar o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Nesses casos, o sofrimento pode comprometer a qualidade de vida e exige avaliação e tratamento por profissionais de saúde, que podem incluir psiquiatras e ginecologistas.
Oscilações de peso durante a fase lútea
Outro aspecto que costuma gerar preocupação quando se fala em saúde mental no ciclo menstrual é a variação do peso corporal. Na fase lútea, é comum ocorrer:
- retenção de líquidos;
- alterações hormonais que influenciam temporariamente a composição corporal;
- aumento do apetite e da ingestão alimentar;
- mudanças na percepção da imagem corporal.
Como consequência, muitas mulheres podem apresentar uma variação transitória de aproximadamente 0,5 a 2 kg, principalmente devido à retenção hídrica. Além disso, estudos sugerem que, durante a fase lútea, algumas mulheres podem consumir, em média, 500 kcal a mais por dia, refletindo o aumento das necessidades energéticas e das mudanças no apetite.
Por isso, pesar-se com muita frequência pode gerar interpretações equivocadas. Ao ver um aumento temporário na balança, algumas mulheres recorrem à restrição alimentar justamente no momento em que o organismo está sinalizando maior necessidade de energia. Esse ciclo pode aumentar a frustração e dificultar ainda mais a relação com a comida.
Cuidar da saúde mental no ciclo menstrual sem restrição alimentar
Nesse contexto, restrições alimentares podem dificultar ainda mais a adaptação do organismo a essas mudanças. O corpo está constantemente buscando manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio de suas funções, e uma restrição energética importante pode aumentar esse desafio.
É importante lembrar que essas mudanças são reais. Não se trata de falta de força de vontade ou de falta de controle, mas de respostas fisiológicas às oscilações hormonais, que também interagem com fatores como estresse, qualidade do sono, contexto de vida e saúde mental no ciclo menstrual.
Quando entendemos que essas oscilações fazem parte da fisiologia, fica mais fácil acolher o corpo em vez de lutar contra ele.
Por isso, ao falar de comportamento alimentar, não podemos ignorar as variações hormonais. Vale a pena observar:
- Você percebe mudanças na sua fome ao longo do ciclo?
- Seu humor influencia a forma como você se relaciona com a comida?
- Em quais momentos você sente mais necessidade de alimentos específicos?
Algumas mulheres responderão que não percebem diferenças. Outras dirão que sentem muito mais vontade de chocolate antes da menstruação, por exemplo. Nenhuma dessas experiências é “certa” ou “errada”. O importante é reconhecer os próprios padrões.
Mais do que buscar controlar o corpo, o convite é aprender a escutá-lo. Isso significa se reconectar com os sinais de fome e saciedade, acolher as emoções sem culpa e desenvolver mais flexibilidade na alimentação.
Em outras palavras, aprender a dançar com o ciclo menstrual, em vez de lutar contra ele.
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Referências
KLUMP, Kelly. et al. Ovarian hormones and emotional eating associations across the menstrual cycle: an examination of the potential moderating effects of body mass index and dietary restraint. International Journal of Eating Disorders, v. 46, n. 3, p. 256-263, 2013.
LIZCANO, Fernando; GUZMÁN, Guillermo. Estrogen deficiency and the origin of obesity during menopause. BioMed Research International, v. 2014, n. 1, p. 757461, 2014.












