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Alimentos hiperpalatáveis: conheça os alimentos difíceis de parar de comer

Já parou para pensar como é difícil parar de comer aquele salgadinho de pacote ou aquele biscoito recheado? Eles são tão saborosos que, muitas vezes, acabamos comendo quase no automático. É o que chamamos de alimentos hiperpalatáveis.

Aqui você vai entender melhor sobre esse tipo de alimento e descobrir por que é tão difícil parar de comê-los.

Vem comigo!

O que são alimentos hiperpalatáveis?

Alimentos hiperpalatáveis são aqueles em que a combinação de determinados componentes — como gorduras, sódio (sal), açúcares e carboidratos — aumenta muito o sabor, tornando-os especialmente agradáveis ao paladar. Pense, por exemplo, em barras de chocolate, salgadinhos de pacote ou biscoitos recheados: muitas vezes é difícil parar de comer depois da primeira porção.

Esse fenômeno está relacionado aos aspectos hedônicos da alimentação, ou seja, ao prazer e à sensação de recompensa que a comida pode proporcionar. Afinal, as pessoas não comem apenas para saciar a fome. A alimentação também envolve experiências sensoriais e emocionais que influenciam diversos mecanismos psicológicos e fisiológicos responsáveis por regular a ingestão de alimentos e o balanço energético.

É comum que alimentos hiperpalatáveis sejam descritos de maneira ampla, como sinônimo de fast-food, doces ou sobremesas, sem que exista uma definição padronizada para esse tipo de alimento.

Esse tipo de classificação, no entanto, pode ser limitado. Por exemplo, dizer que alimentos de fast-food são hiperpalatáveis pode levar à ideia de que todos os itens vendidos nesses estabelecimentos possuem essa característica. 

Entretanto, muitos desses locais também oferecem saladas ou preparações grelhadas, que podem não apresentar o mesmo nível de palatabilidade de um hambúrguer com queijo. Ao mesmo tempo, essa forma de classificação pode deixar de fora outros alimentos que apresentam quantidades semelhantes de gordura, açúcar e sódio, nutrientes que tendem a aumentar a palatabilidade.

Diante dessa lacuna, pesquisadores da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos, buscaram desenvolver uma definição mais objetiva para os alimentos hiperpalatáveis, baseada na combinação específica de nutrientes associados ao aumento do sabor.

Estudo dá uma definição quantitativa para os hiperpalatáveis 

Esses pesquisadores publicaram um estudo com o intuito de propor uma definição mais objetiva para os chamados alimentos hiperpalatáveis.

Eles analisaram as descrições mais utilizadas na literatura científica e, com o auxílio de um software de análise nutricional, avaliaram a composição de diversos alimentos, especialmente em relação à combinação de gorduras, carboidratos e sódio, pois esses nutrientes estão frequentemente associados ao aumento da palatabilidade dos alimentos. 

Com base nessa análise, os pesquisadores propuseram que um alimento pode ser considerado hiperpalatável quando apresenta uma das seguintes combinações nutricionais:

  • Mais de 25% das calorias provenientes de gorduras e 0,3% ou mais de sódio em relação ao peso total do alimento, como ocorre em alimentos como bacon, cachorro-quente e algumas pizzas;

  • Mais de 20% das calorias provenientes de açúcares simples combinadas com mais de 20% de calorias provenientes de gorduras, característica comum em alimentos como brownies, bolos e sorvetes;

  • Mais de 40% das calorias provenientes de carboidratos e 0,2% ou mais de sódio, combinação que pode ser encontrada em alimentos como pães e biscoitos.

Quando os pesquisadores aplicaram esses critérios a uma grande base de dados alimentar norte-americana, a Food and Nutrient Database for Dietary Studies, que reúne alimentos representativos do sistema alimentar dos Estados Unidos, observaram que cerca de 62% dos alimentos analisados poderiam ser classificados como hiperpalatáveis.

Entre eles, aproximadamente 30% eram produtos à base de grãos, como massas e cereais, enquanto 32% correspondiam a carnes processadas. Já os alimentos derivados de frutas que passaram por algum tipo de processamento representaram apenas 7% do total.

A maior parte dos alimentos hiperpalatáveis identificados (cerca de 70%) apresentava a combinação de gorduras e sódio. Outros 25% atendiam aos critérios de gordura e açúcar, enquanto 16% combinavam carboidratos e sódio. Apenas uma pequena parcela dos alimentos se enquadrou em mais de uma dessas categorias.

Assim como outras evidências que apontam diferenças importantes entre alimentos in natura ou minimamente processados e os chamados hiperpalatáveis, o estudo observou que vegetais, peixes e carnes frescas ou cruas não atenderam aos critérios de hiperpalatabilidade.

Por outro lado, alguns alimentos preparados com cremes, molhos ou adição de gorduras passaram a se enquadrar nesses critérios. Isso mostra que, muitas vezes, não é o alimento em si que determina seu nível de palatabilidade, mas a forma como ele é preparado ou processado.

Alimentos com redução de gorduras e açúcares também podem ser hiperpalatáveis

Um dado curioso observado no estudo diz respeito aos alimentos rotulados como tendo baixo teor ou ausência de gorduras, açúcares, sal ou calorias. Entre os 443 itens da base de dados classificados dessa forma, 216 (49%) ainda se enquadraram nos critérios de hiperpalatabilidade.

O resultado chama ainda mais atenção quando se observa os produtos com alegações de redução de gorduras ou de calorias: dos 127 alimentos com esse tipo de rotulagem, 102 (cerca de 80%) foram considerados hiperpalatáveis segundo a definição proposta pelos pesquisadores.

Esses achados sugerem que muitos alimentos comercializados como “dietéticos” podem continuar sendo altamente palatáveis e favorecer um maior consumo.

Isso ocorre porque, ao reduzir um determinado nutriente, como a gordura, por exemplo, a indústria muitas vezes precisa ajustar a formulação do produto para preservar características importantes como sabor, textura e consistência. Esse equilíbrio pode envolver a adição de outros ingredientes, como carboidratos, açúcares ou diferentes aditivos alimentares, como os adoçantes, que ajudam a manter a experiência sensorial do alimento.

Por isso, produtos rotulados como diet, light ou zero costumam ser percebidos como escolhas “mais saudáveis” ou melhores para o controle do peso, porém sua composição pode ser mais complexa do que a simples redução de um nutriente.

Então, devo “cortar” os alimentos hiperpalatáveis?

Ao ler sobre alimentos hiperpalatáveis, você pode até pensar que a melhor solução seria eliminá-los completamente da alimentação. Mas vale lembrar que proibir certos alimentos nem sempre é o caminho mais eficaz. Muitas vezes, quando algo é colocado na categoria do “proibido”, ele pode se tornar ainda mais desejado, o que aumenta a chance de exageros quando surge a oportunidade de consumi-lo.

Por isso, não é necessário “cortar” esse tipo de alimento, mas deixá-los para um consumo ocasional. O prazer também faz parte de uma relação saudável com a comida. Ao longo da história, diferentes culturas desenvolveram técnicas culinárias justamente para tornar os alimentos mais saborosos, combinando ingredientes como gorduras, carboidratos e sal.

Um exemplo clássico é o molho bechamel, preparado com manteiga, farinha de trigo, leite e uma pitada de sal. Ele pode transformar um simples prato de couve-flor em uma preparação muito mais saborosa, especialmente quando gratinada com um pouco de queijo.

Ter uma vida saudável também significa estar em paz com a comida e com o próprio corpo. Isso envolve buscar equilíbrio e se afastar da lógica da restrição alimentar. Ao mesmo tempo, compreender que certas combinações de ingredientes tornam os alimentos mais palatáveis, e podem estimular o consumo, pode nos ajudar a fazer escolhas com mais consciência.

No fim das contas, a ideia não é restringir, mas comer melhor!

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Referências

FAZZINO, Tera L.; ROHDE, Kaitlyn; SULLIVAN, Debra K. Hyper‐palatable foods: development of a quantitative definition and application to the US food system database. Obesity, v. 27, n. 11, p. 1761-1768, 2019.

JUN, Daiil; KNOWLES, Kelly; FAZZINO, Tera L. Examination of hyper-palatable foods and their nutrient characteristics using globally crowdsourced data. PLoS One, v. 20, n. 6, p. e0325479, 2025.

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