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Psicanálise e alimentação: o que o inconsciente tem a ver com a comida

Você já parou para pensar na relação entre psicanálise e alimentação? O psicanalista trabalha com o inconsciente e é um dos profissionais que pode caminhar junto com o nutricionista no processo de melhorar a relação com a comida, tratar transtornos alimentares e lidar com o sofrimento relacionado à alimentação.

Vamos entender juntos essa relação? 

Vem comigo!

Antes de tudo, o que é psicanálise?

Antes de entendermos realmente qual a relação entre psicanálise e alimentação, vamos compreender o que é a psicanálise.

A psicanálise é conhecida como um método terapêutico que explora o inconsciente. Criada por Sigmund Freud, ela surgiu a partir do estranhamento diante de sintomas que não tinham explicação biológica. Freud, que era neurologista, percebia que muitas queixas físicas desapareciam quando as pessoas falavam, especialmente quando acessavam lembranças, emoções ou conflitos reprimidos.

Na época, usava-se a hipnose como recurso terapêutico. Aos poucos, Freud passou a abandonar essa técnica e desenvolveu outro método: a associação livre — a partir da qual o paciente pode falar livremente, sem censura, deixando ideias e memórias emergirem.

Foi assim que Freud inaugurou um novo modo de compreender o sofrimento humano: ouvindo o que não é óbvio, explorando o que está por trás dos sintomas e investigando o papel dos desejos, afetos e experiências inconscientes.

Depois de Freud, outros autores ampliaram a psicanálise, entre eles Jacques Lacan, que destacou o papel da linguagem na construção do sujeito, uma contribuição que pode ajudar a entender como muitas experiências emocionais são simbolizadas (ou não) no corpo e na comida.

Psicanálise e alimentação: o que uma tem a ver com a outra?

Agora sim, vamos entender como psicanálise e alimentação se relacionam. A psicanálise parte da ideia de que o comportamento, inclusive o alimentar, nunca é apenas biológico.

A psicanálise não vê o comer em excesso, as restrições alimentares, a ausência de fome ou o comer por motivos emocionais como hábitos isolados, mas como modos de lidar com algo interno. Por isso, ela considera que quando tentamos consertar esses comportamentos (com dietas rígidas, remédios ou cirurgias, por exemplo), é comum que os sintomas voltem.

Um exemplo: uma pessoa que tem compulsão alimentar pode fazer cirurgia bariátrica. A cirurgia pode mudar a dinâmica do comportamento compulsivo, mas não transforma automaticamente os conflitos emocionais. 

Se o excesso era uma forma de se defender de uma dor psíquica, esse sofrimento vai continuar, e muitas vezes o sintoma migra para outra área, como álcool, cigarro, compras compulsivas, jogos, etc.

A psicanálise ajuda a descobrir o que está por trás da nossa relação com a comida. Quando entendemos esses motivos escondidos, essa relação deixa de ser só um sintoma e pode virar uma chance de aprender a lidar com ele, ou até de deixá-lo para trás.

Emocional, inconsciente e alimentação: algumas questões comuns

Agora, para entender ainda mais como psicanálise e alimentação podem andar juntas, vou apresentar algumas questões alimentares comuns nas quais um psicanalista pode ser aliado.

Comer emocional

É comum orientarmos estratégias para lidar com a fome emocional, como buscar outras formas de regulação emocional. Mas a psicanálise pergunta: por que essa emoção aparece com tanta força? 

Alguém que “sempre come quando está com raiva”, por exemplo, pode descobrir que essa raiva não vem de episódios pontuais, mas de uma dinâmica familiar em que sempre se sentiu invalidada, ou de um ambiente de trabalho hostil, por exemplo. Ao elaborar essa dor, a necessidade de comer para aliviar pode diminuir. Não é sobre controlar a raiva, é sobre ter menos motivos para senti-la.

Culpa ao comer

A psicanálise percebe que nem toda culpa alimentar tem a ver com a comida. Às vezes, a culpa inconsciente vem de algo completamente diferente, como um relacionamento difícil, a sensação de ter falhado com alguém, um evento traumático. A comida entra como um campo em que essa culpa se aloja, pois ali se torna possível “pagar” com restrição, compulsão ou sofrimento.

A influência da família

Na relação entre psicanálise e alimentação, a influência da família é levada muito em conta. Muitas pessoas crescem ouvindo frases como “tem que raspar o prato” ou “coma tudo porque tem gente passando fome”. 

Em outros casos, há famílias que já vivenciaram a fome ou exercem controle rígido sobre o comer, dizendo coisas como “você já comeu demais”. Esse tipo de discurso pode afetar a percepção dos sinais de fome e saciedade, além de gerar culpa e um controle excessivo sobre a alimentação.

Mas, por trás disso, muitas vezes existe algo mais profundo e inconsciente: o desejo de pertencer àquela família, de ser amado e aceito pelos pais. A comida passa a funcionar como um meio de manter o vínculo afetivo. 

No entanto, a psicanálise mostra que é possível continuar amando e sendo amado sem precisar comer além da fome, nem tornar-se rígido com a alimentação. 

Psicanálise e alimentação no cuidado integral

Psicanálise e alimentação podem andar juntas, mas claro, a psicanálise não substitui o acompanhamento nutricional, assim como a nutrição não substitui um trabalho psicanalítico. Quando falamos de transtornos alimentares, comer transtornado ou sofrimento intenso na relação com o corpo e a comida, a atuação de um atendimento multidisciplinar é fundamental.

O papel do nutricionista não é interpretar o inconsciente, mas acolher — nos dois sentidos da palavra: acolher as necessidades biológicas e acolher a subjetividade. Quando o paciente diz “não quero comer”, não é apenas a nutrição que está em jogo. Comer também é vínculo, cultura, afeto e sociabilidade.

Por isso, a psicanálise pode ser uma das ferramentas possíveis nesse caminho, especialmente quando comer se torna a linguagem de algo que o paciente ainda não consegue dizer.

Por fim, para mergulhar ainda mais no tema da psicanálise e alimentação, vale a pena assistir à live que fiz no meu Método Sophie Canal Pro, no YouTube, com a psicanalista Camila Junqueira.

Ela é doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP. É membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde coordena e leciona no curso Problemáticas Alimentares. É também coordenadora e supervisora da Rede de Estudos e Escuta Psicanalítica das Problemáticas Alimentares (REEPPA).

https://www.youtube.com/live/MXPxB7PYsy8?si=8vu3d7Kk204Fm7gL 

Saiba mais!

Se quer saber mais sobre psicanálise e alimentação, tenho uma dica final para você.

Após muitos pedidos de profissionais de saúde que entraram em contato comigo, criei a Formação Método Sophie de Terapia Nutricional

Ao publicar “O Peso das Dietas”, notei uma necessidade de colegas da área de se atualizarem na ciência da Nutrição em relação ao peso, obesidade e transtornos alimentares, além da área comportamental – algo que ainda não é estudado nas faculdades.

O meu objetivo é apresentar uma Nutrição com Ciência e Consciência e fornecer ferramentas para um atendimento mais personalizado e humanizado, com foco na mudança do comportamento e na construção de uma relação mais saudável com a comida.  

A propósito, tive a honra de formar centenas de profissionais de saúde em mais de 20 estados pelo Brasil, entre nutricionistas, médicos e psicólogos. 

Veja o que eles acham da minha metodologia:

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E se ainda não for o momento de fazer o curso, fique à vontade também para assinar o clube Método Sophie Canal Pro no YouTube ou mesmo agendar uma consulta no meu escritório.

Referência

JUNQUEIRA, Camila. Atendimento psicanalítico da compulsão alimentar. São Paulo: Zagodoni, 2023.

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