O Guia Brasileiro de Nutrição em Cirurgia Bariátrica é um documento que reúne recomendações baseadas em evidências para o cuidado nutricional no pré e pós-operatório da cirurgia bariátrica e metabólica.
Ele foi desenvolvido por um grupo de pesquisadoras de diversas universidades brasileiras, que realizou uma revisão de literatura aprofundada para orientar a prática clínica de nutricionistas que atendem pessoas no processo de cirurgia bariátrica.
O resultado desse trabalho originou um artigo científico, publicado em 2023 e, anteriormente, o livro Guia Brasileiro de Nutrição na Cirurgia Bariátrica e Metabólica, lançado em 2022.
Neste texto, você vai entender os principais pontos do guia, por que ele é tão importante para a prática clínica e como ele pode apoiar um cuidado mais humano, individualizado e baseado em evidências.
Vem comigo!
O que é o Guia Brasileiro de Nutrição em Cirurgia Bariátrica?
O Guia Brasileiro de Nutrição em Cirurgia Bariátrica é um documento técnico-científico que reúne as principais recomendações nutricionais para o cuidado de pessoas que passam por cirurgia bariátrica e metabólica. Ele foi elaborado para apoiar a atuação de nutricionistas e equipes de saúde com uma abordagem individualizada, prática e baseada em evidências.
O guia apresenta orientações detalhadas sobre o manejo nutricional em todas as fases do tratamento, incluindo:
- preparo pré-operatório;
- acompanhamento no pós-operatório imediato e tardio;
- uso do balão intragástrico;
- tratamento nutricional no diabetes tipo 2;
- recomendações específicas para adolescentes, idosos, gestantes, pessoas vegetarianas e outras populações.
Além disso, o documento aborda temas como:
- reganho de peso após a cirurgia;
- saúde da microbiota intestinal;
- complicações como doenças inflamatórias intestinais;
- impacto das técnicas cirúrgicas atuais na absorção de nutrientes.
Assim, o guia oferece uma visão ampla e atualizada da nutrição na cirurgia bariátrica, contribuindo para uma prática clínica mais organizada, segura e coerente.
Principais recomendações do Guia
O guia destaca a importância de se fazer uma boa anamnese nutricional, investigando não apenas a alimentação atual, mas também o contexto de vida e histórico clínico do paciente. Entre os aspectos que se recomenda avaliar, estão:
- história e evolução de doenças crônicas, como obesidade e diabetes;
- tratamentos médicos e nutricionais já realizados;
- histórico familiar relevante;
- fatores sociais, econômicos, culturais e emocionais;
- rotina de trabalho;
- prática de atividade física;
- avaliação nutricional completa, incluindo antropometria, exames bioquímicos, exame físico, avaliação dietética e do comportamento alimentar.
O guia dedica um capítulo à hipoglicemia e à hiperinsulinemia reativa, alterações metabólicas que podem ocorrer no contexto da chamada síndrome de dumping, condição caracterizada pelo esvaziamento gástrico acelerado e pela chegada rápida do alimento ao intestino delgado.
Essa síndrome pode se manifestar de forma precoce, com sintomas gastrointestinais e vasomotores logo após a refeição, ou tardia, quando há queda da glicemia algumas horas depois, em decorrência de resposta insulínica exacerbada, sendo mais frequente após a cirurgia bariátrica.
Com o aprimoramento das técnicas cirúrgicas, hoje menos invasivas e mais preservadoras da anatomia digestiva, observa-se redução na incidência de dumping e de episódios de vômitos, uma vez que a passagem gástrica deixou de ser confeccionada de forma tão estreita quanto nos procedimentos mais antigos.
O documento também reforça a importância do planejamento reprodutivo. A recomendação é que a gestação só ocorra entre 18 e 24 meses após a cirurgia, período necessário para reduzir o risco de deficiências nutricionais que podem comprometer o desenvolvimento fetal.
Antes disso, tanto a gestante quanto o bebê estão mais vulneráveis a carências de micronutrientes essenciais, o que pode trazer consequências graves para a saúde materna e infantil.
Suplementação nutricional pós-bariátrica
A suplementação nutricional após a cirurgia bariátrica é um dos pilares do tratamento e está entre os temas centrais do Guia Brasileiro de Nutrição em Cirurgia Bariátrica. Mesmo assim, é comum que os pacientes abandonem os suplementos com o passar do tempo — principalmente quando começam a se sentir bem — o que aumenta significativamente o risco de deficiências nutricionais.
Por ter um caráter disabsortivo, entre os riscos da cirurgia bariátrica estão:
- carências de vitaminas e minerais;
- queda de cabelo, unhas frágeis e alterações de pele;
- anemia, fadiga e perda de massa muscular;
- desnutrição ou subnutrição em casos mais graves;
- necessidade de internação hospitalar, quando não há acompanhamento adequado.
Por isso, o nutricionista precisa monitorar atentamente os sinais clínicos e laboratoriais de deficiência e orientar sobre a importância do uso contínuo dos suplementos, mesmo após a melhora dos sintomas.
Embora a nutrição em cirurgia bariátrica seja essencial, o guia reforça que alguns quadros exigem intervenção médica, principalmente quando já há complicações graves. Ainda assim, no cuidado de longo prazo, o acompanhamento nutricional regular permanece indispensável para a prevenção de deficiências e o suporte à qualidade de vida.
Reganho de peso: o que o Guia diz
O reganho de peso após a cirurgia bariátrica é um tema cercado de estigma. Na prática clínica, é comum que pacientes se sintam envergonhados, culpados ou até evitem retornar às consultas por medo de julgamento. Porém, o Guia Brasileiro de Nutrição em Cirurgia Bariátrica reconhece que o reganho de peso é esperado e não devemos interpretar isso como um fracasso pessoal.
Segundo o documento, a recorrência da obesidade pode ocorrer em até 35% dos pacientes, sendo um fenômeno relativamente comum e de natureza multifatorial, e não resultado de falta de disciplina.
Mesmo assim, o discurso social muitas vezes responsabiliza apenas o paciente. Porém, é bom lembrar que a cirurgia bariátrica atua sobre o trato gastrointestinal, não diretamente sobre o comportamento alimentar, emoções e contexto de vida — fatores que continuam influenciando o comer no pós-operatório.
Embora o Guia trate a relação entre comportamento alimentar e reganho de peso de forma sutil, ele reconhece a necessidade de uma abordagem acolhedora e respeitosa. Isso inclui compreender o sofrimento envolvido, os gatilhos emocionais e as barreiras que dificultam a manutenção dos resultados a longo prazo.
Por que o acompanhamento multidisciplinar é indispensável?
Segundo o Guia, o acompanhamento nutricional após a cirurgia bariátrica deve ser contínuo. Nos dois primeiros anos, o acompanhamento é mais frequente e, a partir desse período, o retorno anual é recomendado, sempre com uma equipe multidisciplinar.
Mudanças hormonais, metabólicas, funcionais, comportamentais e emocionais estão envolvidas na cirurgia bariátrica. Por isso, é papel do nutricionista reconhecer os limites da própria atuação e encaminhar o paciente para outros especialistas quando necessário, pois nenhuma especialidade sozinha dá conta de todas as demandas do paciente.
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Carolina é graduada em Nutrição e Metabolismo pela USP de Ribeirão Preto (SP), possui aprimoramento em Nutrição Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP, é mestre em Ciências pela mesma instituição e atuou por 10 anos como nutricionista clínica no HC-FMRP/USP. Atualmente, trabalha no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina.
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Referências
PEREIRA, Silvia Elaine et al. Brazilian guide to nutrition in bariatric and metabolic surgery. Langenbecks Arch Surg., v. 408, n. 1, p. 143, 2023.
PEREIRA, Silvia; MAGRO, Daniéla Oliveira; ROSSONI, Carina (Org.). Guia Brasileiro de Nutrição na Cirurgia Bariátrica e Metabólica. São Paulo: Dialética, 2022.
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