Quando falamos em comportamento sedentário, estamos nos referindo a períodos prolongados sentado ou deitado enquanto acordado, sem movimento significativo.
A gente está sempre ouvindo que a receita para sair dessa situação é simples: basta levantar do sofá. Esse discurso faz muita gente acreditar que, se não consegue manter uma rotina ativa, o problema é a falta de força de vontade. E aí surge a dúvida: será que sou fisicamente inativo e a culpa é minha mesmo?
Mas quando falamos em saúde, especialmente em comportamento, a resposta é muito mais complexa. Sedentarismo não é culpa sua, porque não depende apenas do querer, depende também do poder. Depende do tempo disponível, das oportunidades, da segurança do ambiente, da rotina de trabalho, do acesso a espaços adequados e até do nível de exaustão física e mental. Percebe como tem bastante coisa envolvida?
Sim, ser fisicamente inativo pode trazer riscos, mas isso não significa que “quanto mais ativo, melhor”, nem que quem não consegue aderir automaticamente ao exercício físico está fazendo algo errado. A culpabilização só aumenta o estigma e afasta as pessoas de comportamentos melhores. Quando entendemos que existem barreiras reais, e não falhas meramente pessoais, abrimos espaço para escolhas mais possíveis, gentis e realistas.
Quer entender mais sobre isso?
Vem comigo!
O que é um hábito saudável em relação à atividade física?
Antes de responder por que sedentarismo não é culpa sua, vou explicar o que é um comportamento saudável diante da atividade física.
Quando falamos em hábito saudável, é importante lembrar que as necessidades variam conforme idade, sexo, rotina e condição de saúde. Ainda assim, existem recomendações gerais para orientar a população.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Guia Brasileiro de Atividade Física sugerem pelo menos 150 minutos de atividade física moderada a vigorosa por semana, o que pode ser distribuído em 30 minutos por dia, cinco vezes por semana, naquela intensidade em que você fica ofegante ao conversar com alguém e com elevação dos batimentos cardíacos.
Mas aqui está um ponto essencial: essa meta não é facilmente atingida. Estudos indicam que aproximadamente metade da população não alcança essa quantidade semanal. Isso não significa falta de esforço ou desleixo, mas sim que a recomendação está acima das possibilidades de muita gente.
Apesar disso, o mais importante é entender que mesmo não conseguindo cumprir essa recomendação, em geral, movimentar-se traz benefícios. Essa mensagem precisa ser difundida com mais força, pois quando a pessoa vê que está distante dos 150 minutos, pode sentir frustração e desânimo. Mas a verdade é que fazer o que é possível, dentro da sua realidade, provavelmente será melhor do que não fazer atividade física alguma.
As dimensões da atividade física
Além disso, para compreender melhor que sedentarismo não é culpa sua, é importante ter em mente que toda atividade física conta. Ir para a academia, fazer um esporte, mas também realizar as tarefas diárias são movimentos corporais. Por isso, fala-se nessas dimensões da atividade física:
- Atividade física ocupacional: aquela realizada no trabalho, como no caso de faxineiros ou camareiras, que passam boa parte do dia em movimento.
- Atividade física de deslocamento: caminhar até o metrô, pedalar para o trabalho ou fazer trajetos a pé.
- Atividade física doméstica: faxina, cuidar da casa, organizar, carregar compras.
- Atividade física de lazer: o tempo livre dedicado ao movimento — academia, esportes, dançar, caminhar com o cachorro, passear ao ar livre. Nesse caso, você pode achar uma chatice ir para a academia fazer esteira, mas de todo modo é um atividade física de lazer, pois está sendo realizada no seu tempo ocioso.
Sedentarismo e saúde: entender o risco sem culpabilizar
Falamos que fazer algo é melhor do que nada, mas isso não significa que qualquer movimento seja automaticamente benéfico.
Um exemplo claro é o paradoxo da atividade física laboral. Muitas pessoas passam o dia inteiro se movimentando no trabalho — carregando peso, caminhando longas distâncias, mantendo posturas desconfortáveis — e isso, em vez de promover saúde, pode piorar dores, estresse e sobrecarga física.
Uma coisa é se deslocar de forma voluntária, confortável e segura; outra é ser obrigado a caminhar por muito tempo em condições ruins, sem descanso, sem autonomia.
No entanto, há outras situações em que a atividade física pode não ser tão benéfica assim também.
Uma delas é quando o movimento está sendo realizado por pressão estética. Vivemos em uma cultura que transforma movimento em obrigação moral e estética. Muitas pessoas fazem exercício físico movidas pela culpa, e não pelo prazer ou saúde. Isso abre espaço para práticas arriscadas:
- treinos excessivos,
- uso de anabolizantes,
- dietas restritivas,
- cirurgias plásticas desnecessárias,
- comparação com padrões corporais inalcançáveis.
Essa busca incansável por um ideal “perfeito” pode deteriorar a saúde mental, aumentar o risco de transtornos alimentares e gerar uma sensação constante de insuficiência. Aqui, mais uma vez, é crucial lembrar: sedentarismo não é culpa sua, e o movimento não precisa ser punitivo.
Outra situação é no caso dos esportes de alto rendimento. O esporte costuma ser visto como o auge da vida ativa. Mas o universo esportivo leva a outra armadilha: a ideia de que é preciso treinar sempre mais, buscar mais desempenho e nunca descansar. Isso pode gerar estresse, lesões e exaustão.
Nesse caso, o foco não está na saúde, mas na performance e no rendimento. Ainda assim, esportistas costumam ser mais longevos do que pessoas completamente inativas.
Por fim, 4 motivos para entender por que sedentarismo não é culpa sua
- O sedentarismo é complexo
Quando alguém é fisicamente inativo, o senso comum costuma rotular a pessoa de preguiçosa. Esse julgamento é tão repetido que acaba sendo reproduzido inclusive por profissionais de saúde. Mas esse olhar simplista ignora algo fundamental: sedentarismo não é culpa sua. A inatividade não nasce da “preguiça”, e sim de uma combinação complexa de fatores culturais, sociais, econômicos, psicológicos e biológicos.
2. O comportamento é moldado pelo contexto
A fadiga e o cansaço — físicos e mentais — impactam diretamente a capacidade da pessoa de se movimentar. A motivação também é profundamente influenciada pelo ambiente: quem vive sob estresse constante, jornadas exaustivas, insegurança alimentar, falta de apoio ou sobrecarga mental tem muito mais dificuldade de iniciar ou manter hábitos ativos. O comportamento é moldado pelo contexto, não apenas pela força de vontade.
3. A história de vida importa
Não faz sentido responsabilizar o indivíduo sem enxergar sua história de vida. Pense em uma mãe solo que mora na periferia: acorda antes do sol nascer, leva os filhos para a escola, enfrenta longos deslocamentos, trabalha em condições precárias, tem um segundo emprego, precisa alimentar toda a família e muitas vezes vive em insegurança alimentar.
Aí ela ouve: “por que você não desce um ponto antes?”, “por que não vai à academia?”, “treine à noite!”.
Essas recomendações simplesmente não falam com essa pessoa, que está exausta, pode se sentir insegura nas ruas, não tem academia por perto, não tem dinheiro suficiente, não tem tempo e não tem lazer. Percebe que não faz sentido culpabilizar essa pessoa por não fazer atividade física?
4. A mudança precisa vir do ambiente
Precisamos de um ambiente adequado, com políticas públicas, espaços seguros, acessíveis e inclusivos para que o movimento seja possível. A pessoa não pode carregar sozinha a responsabilidade por um problema estrutural.
Mais uma vez: sedentarismo não é culpa sua. É consequência de realidades que vão muito além da força de vontade, e reconhecer isso é o primeiro passo para tirar o peso do estigma e construir caminhos mais possíveis e humanos para a saúde.
Saia do sedentarismo respeitando suas possibilidades e limites
Se você tem a possibilidade de praticar atividade física, lembre-se de que o mais importante é manter a regularidade, sem transformar o movimento em sofrimento. O melhor exercício não é o “da moda”, nem o mais intenso, nem o que promete queimar mais calorias. O melhor exercício é aquele que cabe na sua vida, respeita seus limites, combina com a sua energia e traz prazer.
As pessoas se mantêm engajadas naquilo de que gostam. Isso vale tanto para a atividade física quanto para a alimentação: para que um comportamento seja sustentável, ele precisa ser, no mínimo, prazeroso.
E vale reforçar: praticar atividade física regularmente não garante perda de peso — e nem deveria ser esse o objetivo principal. O foco é saúde, funcionalidade, bem-estar e autonomia. Além da atividade física, cuide também do sono, priorize alimentos frescos e preparados em casa e busque formas saudáveis de lidar com o estresse.
Quer saber mais por que sedentarismo não é culpa sua? Vale a pena assistir a live que fiz no meu Método Sophie Canal Pro, no YouTube, com o educador físico Bruno Gualano. Ele é doutor em Ciências pela Escola de Educação Física e Esporte da USP (2010); tem pós-doutorado em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina da USP (2011); além de ser Presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP.
https://www.youtube.com/watch?v=q3PRLNVLss4&list=PLJR0RX0a0js8V1U5VgjH-CofXVGQTVKHa&index=24
Saiba mais!
Agora que já sabe por que sedentarismo não é culpa sua, convido você a conhecer o meu curso online Efeito Sophie!
Nele, eu não vou falar sobre as últimas dietas da moda, alimentos milagrosos ou fórmulas mágicas de emagrecimento. Até porque não acredito em nada disso!
A minha missão é te ajudar a fazer as pazes com a comida e corpo, a identificar o seu comportamento e relacionamento diante da comida. Para que, enfim, você possa encarar a alimentação como algo prazeroso, sem estresses e muito menos culpa.
Com algumas dicas práticas, sempre focando na sua saúde e no seu bem-estar, você poderá alcançar o SEU peso saudável, de forma gradual e duradoura. O peso é consequência da sua saúde.
Vamos juntos nessa?
→ Se inscreva e comece hoje mesmo o curso online Efeito Sophie! ←
Não é o melhor momento para fazer o curso? Não tem problema! Te convido a ler meus livros O Peso das Dietas, Os 7 pilares da saúde alimentar e Pare de engolir mitos, assistir uma das minhas próximas palestras ou mesmo agendar uma consulta se precisar de um acompanhamento mais personalizado.
Bon appétit!
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
OMS. Diretrizes da OMS para atividade física e comportamento sedentário. Genebra: OMS, 2020.
Se gostou deste artigo sobre sedentarismo não é culpa sua, então também vai gostar destes posts que separei para você:
- Como gostar de fazer exercícios? Dicas para vida saudável sem punição
- Exercícios para emagrecer: será que só “fechar a boca” e malhar basta?
- Já ouviu falar em body neutrality?












