As novas diretrizes alimentares dos Estados Unidos, Dietary Guidelines for Americans 2025–2030, foram publicadas em janeiro de 2026, marcando uma mudança simbólica ao propor uma pirâmide alimentar dos EUA invertida.
Desse modo, carnes, laticínios, frutas e vegetais estão em cima da pirâmide, mas em maior quantidade, enquanto grãos e outros alimentos ricos em carboidratos ocupam a parte mais baixa da figura, em menor quantidade.
Além de propor a inversão da pirâmide, as diretrizes passam a enfatizar o consumo de real food (comida de verdade) — ou seja, alimentos in natura e minimamente processados — em detrimento dos ultraprocessados. Essa orientação, vale lembrar, já é adotada no Brasil desde 2014, com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira.
A nova pirâmide alimentar dos EUA traz avanços importantes, especialmente em um momento em que uma verdadeira revolução na Nutrição se faz necessária. A pirâmide alimentar de 1992, por exemplo, enfatizava de forma excessiva o consumo de carboidratos refinados e reforçava o medo das gorduras.
Essa lógica começou a ser revista em 2011 com a proposta do MyPlate, uma representação mais intuitiva, que passou a incentivar o consumo de frutas, legumes e verduras.
Ainda assim, as diretrizes dos EUA publicadas em 2026 apresentam contradições e abrem espaço para bons debates. Vamos conversar sobre isso?
Vem comigo!
O que diz a nova pirâmide alimentar dos EUA?
A publicação das Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 traz logo na sua abertura uma mensagem direta dos secretários de Agricultura e de Saúde e Serviços Humanos dos EUA: “coma comida de verdade”, entendida como o incentivo ao consumo de alimentos in natura e minimamente processados.
Segundo as diretrizes, as famílias estadunidenses devem basear sua alimentação em alimentos integrais e ricos em nutrientes, como carnes, ovos e laticínios, além de vegetais, frutas, gorduras consideradas saudáveis e grãos integrais.
Essa orientação vem acompanhada de um alerta claro sobre a necessidade de reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, caracterizados por excesso de carboidratos refinados, açúcares adicionados, sódio, gorduras de baixa qualidade e aditivos químicos. De acordo com os secretários, essa mudança de padrão alimentar pode alterar de forma significativa a trajetória de saúde da população americana.
Nesse sentido, a mensagem se aproxima muito do que já vem sendo defendido no Brasil desde a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, em 2014, que também coloca os alimentos in natura e minimamente processados no centro da alimentação e reconhece o papel do ambiente alimentar e das políticas públicas.
Além disso, o texto das diretrizes faz um chamado coletivo. Não se trata apenas de uma responsabilidade individual, mas de um esforço que envolve agricultores, pecuaristas, profissionais de saúde, educadores, líderes comunitários, a indústria e legisladores em todos os níveis de governo.
A pirâmide alimentar dos EUA é a melhor forma de falar sobre alimentação?
Com a nova pirâmide alimentar dos EUA invertida, a publicação traz carnes e laticínios no topo, enquanto grãos e alimentos ricos em carboidratos estão na parte de baixo, em menor quantidade.
No entanto, é de se questionar o próprio modelo gráfico escolhido. A pirâmide, invertida ou não, continua sendo uma representação hierarquizada dos alimentos, sugerindo a superioridade entre grupos alimentares.
Isso pode ir na contramão da recomendação de consumir alimentos in natura de forma variada. Ao destacar determinados alimentos por conterem mais de um nutriente específico, corre-se o risco de reforçar a lógica de que existem alimentos mais saudáveis que outros, levando à demonização ou ao enaltecimento de certos alimentos.
Sem falar que, há algum tempo, já se reconhece que a alimentação saudável não diz respeito apenas a nutrientes e alimentos isolados, mas também ao comportamento alimentar, dimensão que acaba sendo desconsiderada nessas diretrizes.
Velhos embates entre carboidratos, gorduras e proteínas
As recomendações relacionadas a açúcar, gorduras e proteínas ilustram bem essas contradições na nova pirâmide alimentar dos EUA.
De certo modo, a pirâmide trouxe uma revisão de valores, com uma maior aceitação das gorduras, que foram rechaçadas por muito tempo. Isso é positivo, pois a ciência hoje reconhece que as gorduras não são vilãs.
Por outro lado, o documento apresenta uma incoerência. A pirâmide alimentar dos EUA recomenda alimentos como manteiga, gordura bovina, carnes e laticínios integrais — fontes importantes de gorduras saturadas —, ao mesmo tempo que afirma ser necessário reduzir o consumo desse tipo de gordura para até 10%, gerando um descompasso nas recomendações.
Além disso, embora haja consenso de que o consumo excessivo de açúcares está associado ao aumento do risco de doenças crônicas — sendo seu consumo moderado considerado aceitável —, as diretrizes excluem completamente o açúcar. Essa abordagem reforça uma narrativa frequentemente baseada na demonização de um nutriente em detrimento da exaltação de outro.
Gorduras e açúcares não são, por si só, o problema, o excesso é. E esse raciocínio deveria se estender também às proteínas, frequentemente tratadas como sinônimo de saúde, quando seu consumo excessivo também pode trazer prejuízos.
As diretrizes mencionam ingestões entre 1,2 e 1,6 g de proteína por quilo de peso corporal ao dia, com base em uma revisão sistemática rápida, valores bem acima da recomendação de 0,8 g/kg/dia estabelecida pelas Dietary Reference Intakes (DRIs) para adultos saudáveis, valor também considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Além disso, na pirâmide alimentar dos EUA, as proteínas parecem ser tratadas como sinônimo de carnes, o que acaba invisibilizando alimentos como as leguminosas (feijões, lentilhas e grão-de-bico) que também são importantes fontes proteicas e que, consumidas com cereais, formam uma excelente combinação de aminoácidos, como ocorre no clássico arroz com feijão brasileiro. Esses alimentos, porém, quase não são citados nas novas diretrizes.
Conflitos de interesse na nova pirâmide alimentar do EUA
Apesar de trazer avanços importantes — como a atenção à saúde da microbiota intestinal, a retirada da vilanização das gorduras, a discussão sobre os ultraprocessados, o cuidado com a hidratação e a recomendação de redução do consumo de álcool — há uma questão sensível relacionada à pirâmide alimentar dos EUA: os conflitos de interesse.
Diversos profissionais envolvidos na revisão e elaboração das diretrizes possuem vínculos com a indústria, especialmente dos setores de carne, laticínios e farmacêutico.
Esses vínculos levantam dúvidas legítimas sobre a neutralidade de algumas recomendações, especialmente pelo destaque conferido às proteínas de origem animal, inclusive em um contexto no qual se discute cada vez mais as mudanças climáticas e se reconhece que a produção de carne apresenta maior impacto ambiental.
Por fim, embora o resgate da ideia de “real food” represente um avanço importante no discurso oficial estadunidense, é fundamental manter um olhar crítico. A promoção da alimentação saudável exige transparência, ciência e, sobretudo, o reconhecimento de que comer bem é um ato complexo, que vai além dos nutrientes.
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Referências
USDA. The Scientific Foundation For The Dietary Guidelines For Americans. 2026
USDA. The Scientific Foundation For The Dietary Guidelines For Americans: Appendices. 2026
USDA. Dietary Guidelines for Americans, 2025–2030. 2026
Imagem Destacada por: Freepik












