Entrevista para o Valor Econômico. Dia 30/10/2014 participo do seminário internacional Alimentação Hoje: Entre Carências e Excessos.


Reproduzo aqui o artigo com a autorização do jornal.

Logo Valor Econômico

22/10/2014 – 05:00

Seminário internacional discute cultura e educação alimentar
Por Maria da Paz Trefaut

A nutricionista Sophie Deram, especialista em transtornos alimentares

Qual o impacto da política e da economia nos hábitos à mesa? De que forma a cultura e a educação alimentar são permeáveis a modismos? Essas e outras questões serão levantadas no seminário internacional Alimentação Hoje: Entre Carências e Excessos, que ocorre entre os dias 28 e 30, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Dezenove profissionais de várias áreas, dos EUA, da Espanha e do Brasil, vão participar da programação, que tratará de assuntos diversos como sustentabilidade, nutrição, publicidade, produção e acesso ao alimento.

Num painel como esse, não poderia faltar uma abordagem sobre obesidade e dietas. Afinal, tudo leva a crer que a difusão da gastronomia cresce no mesmo compasso que a obsessão pela boa forma e pelos regimes alimentares rigorosos. A tendência do momento, porém, é dar voz a quem critica as dietas restritivas – aquelas que suprimem totalmente os carboidratos ou deixam as pessoas com fome por conta do baixíssimo consumo calórico. Apesar de existirem estudos desde 1985 que contestam esses modelos alimentares, eles continuam a ser prescritos.

A mesa-redonda sobre educação alimentar trará duas nutricionistas: Elisabetta Recine, ligada a políticas públicas de alimentação, e Sophie Deram, especialista em transtornos alimentares. Juntas, falarão de estratégias educativas para a alimentação e sobre o quanto é difícil para o público encontrar um caminho diante de tanta informação e contrainformação alimentar.

Sophie, formada na França, com especialização na Califórnia e doutorado em endocrinologia na USP, vai criticar o alarmismo que tem sido feito em torno da obesidade. “Claro que o assunto é importante, mas deve ser tratado de uma forma menos terrorista. Tenho percebido que a maioria das pessoas com transtornos alimentares graves começou com esse quadro depois de fazer dietas de emagrecimento.”

Sophie pesquisa o efeito das dietas restritivas. “Há pesquisas que mostram que elas engordam a longo prazo. O prazer de comer é importante e faz parte da vida equilibrada. Uma pessoa que come com prazer, no fim, vai comer menos do que outra que nega vontades e desejos.” Segundo ela, as dietas radicais podem causar estresse no cérebro e levar à compulsão alimentar. “Sou totalmente contra dietas para crianças, pois elas estão com o corpo em desenvolvimento. Há estudos que mostram que essa experiência pode levar à compulsão alimentar na adolescência.”

A perspectiva de somar saúde e equilíbrio à mesa introduz outro aspecto contemplado no seminário, a cultura alimentar. Uma das pessoas escaladas para falar desse assunto é Bela Gil, que apresenta o programa “Bela Cozinha”, no GNT. “Comer de acordo com a própria cultura faz bem para o meio ambiente [pois comemos comidas locais, sem grande deslocamento], para a economia e para a nossa saúde”, diz ela, que abordará, também, “a dificuldade que temos de reconhecer a comida como forma de cultura num mundo completamente globalizado e moderno”.

Bela nem se lembra da última vez em que comeu biscoitos e salgadinhos de pacote, balas, bombons, refrigerantes, sucos de caixinha, presunto, peito de peru e outros produtos industrializados. Mas acredita que hoje as pessoas estão mais abertas para experimentar coisas novas. “Antigamente comida natural era sinônimo de hippie, macrobiótico, pé-sujo. Na verdade, comer de forma natural ajuda a preservar a saúde, diminui os gastos públicos com doenças crônicas diretamente relacionadas com a alimentação, como diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e câncer. E, ainda, ajuda a preservar o meio ambiente, por evitar o uso de agrotóxicos.”

O tema ambiente terá palestrante internacional: o ativista americano antitransgênicos Jeffrey Smith, diretor executivo do Institute of Responsible Technology. Ao Valor, disse que “milhares de médicos nos EUA” já prescrevem dietas sem organismos geneticamente modificados (OGM). E que, ao suprimir esses alimentos, os pacientes “descrevem melhorias significativas na saúde, alívio de sintomas gastrointestinais, redução de problemas reprodutivos e melhoria no sistema imunológico”.

Os EUA são o país onde mais cresce a produção de transgênicos e, segundo Smith, o “processo de aprovação desses alimentos é uma fachada”. “Não é necessário nenhum teste de segurança ou rotulagem. Essa política foi criada pelo Food and Drug Administration [órgão governamental responsável pelo controle de alimentos], depois que a Casa Branca instruiu-os a promover os OGM. Mas o conhecimento sobre os perigos que representam para a saúde está se espalhando. Segundo inquérito independente realizado neste ano pelo Hartmann Group, 40% dos americanos dizem que estão reduzindo ou evitando os OGM”.

Sem radicalismos e de forma quase prosaica se dará a participação da nutricionista Neide Rigo, especialista em plantas não convencionais encontradas no espaço urbano. Ela fará uma oficina para mostrar e difundir espécies que quase desapareceram das cidades: mangarito, serralha, taioba, beldroegas e várias frutas. “São plantas que podem ser aproveitadas como quaisquer outras. São boas fontes de fibras, minerais, antioxidantes e vitaminas.”

Como evitar que desapareçam? “Plantar, falar delas, comprar quando encontrar e quando viajar. Cada pessoa que conhece um pouco sobre essas plantas pode funcionar como multiplicador: espalhando a informação, postando em blogs. É um processo lento, mas quem sabe…”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *